A Democracia do Futuro e o Sonho-Visão de Dom Bosco

1. Introdução

No livro O Que Há de Errado com a Política? Fundamentos para uma Verdadeira Democracia, procuramos demonstrar, em resumo, que o que temos hoje no Brasil e no mundo em geral não se trata de formas legítimas de democracia, porém formas de plutodemagogicracias. Ou seja, o que vemos são sistemas de representação política de nos quais predominam amplamente o poder dos que detêm grandes recursos materiais (pluto) e dos que iludem a população com falsas soluções de seus problemas (demagogia).

Ora, uma verdadeira democracia precisa ser, sinteticamente, “o governo do povo, pelo povo e para o povo. E, como é bem evidente, nesses sistemas de plutodemagogicracias o governo é do povo, pelo povo, mas nunca se volta para o justo atendimento das necessidades do povo, isto é, não é um governo para o povo.

Da mesma forma, nessa obra procuramos apresentar os fundamentos para uma verdadeira democracia, que são: 1) a liberdade; 2) a igualdade de oportunidades, sobretudo nas eleições (escolha dos governantes), e também nas demais instituições sociais; 3) a harmonia entre funções e responsabilidades sociais com os níveis de consciência e capacidades humanas. Também esboçamos um modelo de escolha dos representantes que denominamos de verdadeira democracia representativa, ou de Democracia do Futuro.

Monumento à Democracia do Futuro (Sonho-Visão de Dom Bosco)

Muito embora a abordagem do livro faça comparações de suas explanações com as principais obras das grandes tradições religiosas do mundo, sua abordagem é sobretudo científica, amparada por textos e pesquisas de eminentes cientistas sociais e políticos, a exemplo de Philip Converse, C.B. Macpherson, Maurice Duverger e Ernst F. Schumacher.

Assim sendo, é natural que surja a questão: – qual a relação que pode haver entre esses fundamentos científicos para uma verdadeira democracia, e o modelo apresentado de democracia representativa do futuro, com o sonho-visão de Dom Bosco? Relação que está sugerida na placa em frente ao monumento dedicado a apresentar, esquematicamente, a democracia do futuro, ao lado da Pedra Fundamental de Brasília.

Placa no Monumento à Democracia do Futuro (ao lado da Pedra Fundamental, Fazenda Roda e Cruz)

Esse sonho-visão de Dom Bosco tem sido muito associado à fundação de Brasília, existindo inclusive a bela ermida às margens do lago Paranoá dedicada a Dom Bosco e a esse sonho, considerado profético pelos seus admiradores. Para os que não conheçam tal sonho-visão cabe uma breve apresentação.

Monumento Ermida Dom Bosco (Lago Sul, Brasília)
Parte Interna do Monumento Ermida Dom Bosco
Placa de Bronze Dentro do Monumento Ermida Dom Bosco

2. Uma Síntese do Sonho de Dom Bosco

Essa síntese foi retirada, em boa medida, de uma publicação da UCB (Univ. Católica de Brasília), a qual pode ser lida, na íntegra, no seguinte endereço: https://ucb.catolica.edu.br/portal/noticias/um-sonho-profetico-de-dom-bosco/

Em 21 de abril de 1960, o Brasil inaugurou sua nova capital, Brasília, ideia existente de longa data, como demonstra o monumento Pedra Fundamental de Brasília, de 1922, visando interiorizar o desenvolvimento do país.

Monumento Pedra Fundamental de Brasília (1922, Planaltina-DF)
Placa de Bronze no Monumento Pedra Fundamental de Brasília (1922, Planaltina-DF)

Muitos textos, discursos e artigos, inclusive da imprensa brasileira e estrangeira, vêm desde a fundação de Brasília associando o sonho de Dom Bosco, considerado profético pelos seus admiradores, quanto à fundação e quanto aos destinos da nova capital. Não cabe aqui trazer a íntegra da narrativa desse sonho porque é muito grande. Ocupa bem 10 páginas nas “Memórias Biográficas de Dom Bosco”.

Cabe desde logo notar, que, segundo o próprio documento publicado pela Universidade Católica de Brasília: “É indispensável notar que toda profecia é, de per si, obscura em seu enunciado, usando em sua expressão termos genéricos e linguagem imaginosa, figurativa”. Esse aspecto do sonho-visão, naturalmente, permite que lhe sejam dadas diferentes interpretações. Mesmo assim, devemos dizer que estão situados nitidamente no tempo, e sobretudo no espaço, os contornos das previsões contidas no sonho-visão de Dom Bosco.

O sonho-visão data de 1883. Dom Bosco o relatou nesse ano numa reunião da Assembleia Geral da Congregação Salesiana. O Pe. Lemoyne, que recolhia as memórias do Santo, transcreveu-o imediatamente, submetendo-o à correção de Dom Bosco, que o examinou com atenção, acrescentando e modificando. Foi publicado nas páginas 385 a 394 do volume XVI das “Memorie Biografiche” de Dom Bosco, cuja primeira edição veio a público em 1935 (E. CERIA, Memorie Biografiche di S. Giovanni Bosco, vol. 16, Societa Editrice Internazionale, Torino, 1935).

3. Assim Começa Dom Bosco a Narrativa

“Na noite que precedia a festa de Santa Rosa de Lima, 30 de agosto, tive um sonho. Percebi que estava dormindo e parecia-me, ao mesmo tempo, correr a toda velocidade, a ponto de me sentir cansado de correr, de falar, de escrever e de esforçar-me no desempenho das ocupações costumeiras. Enquanto hesitava se tratava de sonho ou de realidade, pareceu-me entrar em um salão, onde se achavam muitas pessoas, falando de assuntos vários.”

E Dom Bosco reproduz longamente o assunto da conversa, da qual destacamos apenas poucas passagens:

“(…) Nesse ínterim, aproximou-se de mim um jovem de seus dezesseis anos, amável e de beleza sobre-humana, todo radiante de viva luz, mais clara que a do sol (…)”.

Esse amável e radiante guia, o acompanhou durante toda a misteriosa viagem. Esse se apresenta como seu amigo e dos Salesianos, e afirma que vem em nome de Deus:

“– Sente-se a esta mesa e puxe esta corda.

Havia, no meio daquele salão, uma mesa, sobre a qual estava enrolada uma corda. Vi que essa corda estava marcada com linhas e números, como se fosse uma fita métrica. Percebi, mais tarde, que (…) estava situado na América do Sul, exatamente por sobre a linha do Equador, correspondendo os números impressos na corda aos graus geográficos de latitude (…)”.

Segue-se a narração da vista de conjunto da América do Sul, segundo explica Dom Bosco:

“Observo que então via tudo de conjunto, como que em miniatura. Depois, como direi, vi tudo em sua real grandeza e extensão. Foram os graus marcados na corda correspondendo exatamente aos graus geográficos de latitude, que me permitiram gravar na memória os sucessivos pontos que visitei, viajando na segunda parte do sonho. (…) Aquelas montanhas eram as Cordilheiras da América do Sul e aquele mar o Oceano Atlântico (…)”.

Prossegue a visão, mostrando a Dom Bosco como conseguiria guiar tantos povos ao rebanho de Cristo, que era o seu maior objetivo, como chefe da Ordem religiosa por ele fundada:

“– Quer ver o que sucederá depois? Venha cá. (…) Assim dizendo, tirou do bolso um mapa, que mostrava assinalada a diocese de Cartagena (Colômbia). Era o ponto de partida.

Enquanto olhava o mapa, a máquina apitou e o trem se pôs em movimento. Viajando, meu amigo falava muito, mas nem tudo eu podia entender, por causa do barulho do comboio. Aprendi, no entanto, coisas belíssimas e inteiramente novas sobre astronomia, náutica, meteorologia, sobre a fauna, a flora e a topografia daqueles lugares, que ele me explicava com maravilhosa precisão. (…)

Ia olhando através das janelas do vagão e descortinava variadas e estupendas regiões. Bosques, montanhas, planícies, rios tão grandes e majestosos que não era capaz de os acreditar assim tão caudalosos, longe que estavam da foz. Por mais de mil milhas, costeamos uma floresta virgem, inexplorada ainda hoje. Meus olhos tinham uma potência visual maravilhosa, não encontrando obstáculos que os detivessem de estender-se por aquelas regiões. (…)

Mas não era tudo. Entre o grau 15 e 20, havia uma enseada bastante extensa, que partia de ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: – quando se vierem cavar as minas escondidas em meio a estes montes aparecerá aqui a terra prometida, que jorra leite e mel. Será uma riqueza inconcebível. (grifos nossos)

4. A Localização e o Que Viu Dom Bosco?

Dom Bosco localizou a faixa compreendida pelos paralelos 15 e 20, entre os Andes e o Oceano Atlântico. Exatamente entre os paralelos 15 e 16 foi localizada a nova capital do Brasil.

Embora o objeto de seu sonho-visão não seja exclusivamente nem mesmo explicitamente Brasília, podemos afirmar que Dom Bosco viu, em 1883, o que hoje, em parte, já é a realidade que podemos observar.

Que Dom Bosco tivesse associado ao Brasil esse sonho-visão, está fora de dúvida. Podemos compreender isso melhor, se recordarmos que, em 14 de julho de 1883, alguns dias antes desse sonho-visão, desembarcavam no Brasil os primeiros Salesianos, para dar início a primeira fundação de sua Ordem nesse país. Toda a preocupação de Dom Bosco estava, naqueles dias, voltada para o Brasil. Testemunha o Pe. Filipe Rinaldi, terceiro sucessor de Dom Bosco nessa Ordem, que o surpreendera em seu quarto, contemplando enternecido um atlas em que focalizava exatamente o Brasil.

No sonho-visão que resumidamente examinamos, Dom Bosco abarcou o desenvolvimento de sua obra religiosa, juntamente com o progresso material do Brasil, na extensão que lhe permitiu sua recordação (translado ao cérebro físico) da impressionante visão no campo psíquico, no caso no nível chamado de “astral”, auxiliado que foi (como se fosse um convidado: “Sente-se a esta mesa e puxe esta corda”) por um ser de extraordinária luz (“amável e de beleza sobre-humana, todo radiante de viva luz, mais clara que a do sol (…) a entrar em um salão”).

Quanto ao progresso do Brasil, já temos a inauguração da nova capital e o que não passa da aurora do que, na melhor das hipóteses, são possíveis futuros grandes desenvolvimentos, de uma realidade social que possa algum dia vir a ser associada com “a terra prometida, que jorra leite e mel. E que será de uma riqueza inconcebível”.

Enquanto que o crescimento da obra Salesiana, bem como de outras Ordens religiosas cristãs tornou-se, com exatidão temporal, clara realidade e, podemos acrescentar, bem dentro do prazo de 120 anos que foi antecipado pelo maravilhoso radiante jovem que o conduziu e ensinou, ao longo de todo seu sonho-visão.

5. Nossa Interpretação do Sonho em Relação à Democracia do Futuro

Em nossos sites e páginas, bem como em nossos escritos, deixamos bastante claro que o aparecimento aqui da “terra prometida, onde jorrará leite e mel”, onde haverá “uma riqueza inconcebível (usando a linguagem evidentemente alegórica de Dom Bosco), não terá possibilidade de tornar-se realidade sem uma grande reforma intelectual no campo metafísico e ético, e sem o consequente advento de novas formas de grandes instituições sociopolíticas, inspiradas numa metafísica e numa ética verdadeiras.

Resumidamente, vemos que o mundo carece de uma visão metafísica e ética que seja ao mesmo tempo verdadeiramente católica e verdadeiramente científica. Isso parece uma contradição aos pensadores materialistas, e também aos pensadores que seguem as atuais concepções dominantes nas grandes religiões, porém, para a visão metafísica e ética que fundamenta a Democracia do Futuro, isso trata-se de uma clara necessidade.

Nesse sentido, trazemos a seguir algumas citações com o intuito de oferecer uma ideia da visão metafísica a que estamos nos referindo, e que pode ser melhor conhecida em sites como A Filosofia Perene (ou Esotérica); A Fraternidade Universal Como uma Lei; O Humanitarismo; Site Anna Kingsford; O “Novo” Evangelho da Interpretação; O Cristianismo Budista; A Roda e a Cruz; e Ideias para um Mundo Melhor.

A Presença nas Escrituras de um Sentido Místico Escondido Dentro do Sentido Aparente

“Esta primeira sugestão (…) que nos foi dada a respeito da verdade que posteriormente foi revelada plenamente: a presença nas Escrituras de um sentido místico escondido dentro do sentido aparente, como uma noz em sua casca, o qual é o sentido pretendido, e não o sentido literal. (Edward Maitland. The Story of Anna Kingsford and Edward Maitland and of the New Gospel of Interpretation, p. 53; grifo nosso)

A Necessidade da Interpretação das Bíblias do Mundo

Aquilo que vocês precisam na Terra é a interpretação de suas Bíblias, e de todas as Escrituras que contém a sabedoria oculta, o mistério de que São Paulo tão frequentemente mencionava como existindo desde os primórdios do mundo”. [P. ex: Romanos 16:25] (Edward Maitland, editor. Uma Mensagem à Terra, p. 69; grifos nossos)

Erguido Véu do Simbolismo Igrejas São Similares, Doutrinas Básicas São Idênticas

Uma vez erguido o véu do simbolismo da face divina da Verdade, todas as Igrejas são similares, e a doutrina básica de todas é idêntica (…). Grega, Hermética, Budista, Vedantina, Cristã – todas essas Lojas dos Mistérios são essencialmente unas e são idênticas em doutrina. (…)

Nós sustentamos que nenhum credo eclesiástico isolado é compreensível somente por si mesmo, se não for interpretado com o auxílio de seus antecessores e de seus contemporâneos.

Por exemplo, estudantes de teologia cristã somente aprenderão a entender e a apreciar o verdadeiro valor e significado dos símbolos que lhes são familiares por meio do estudo da filosofia Oriental e do idealismo pagão.

Pois o Cristianismo é o herdeiro dessa filosofia e desse idealismo, e o que há de melhor em seu sangue vem das veias dessa filosofia e desse idealismo.

E visto que todos os seus grandes antecessores ocultaram por trás de suas fórmulas e ritos externos – os quais são meras cascas e coberturas para entreter os pobres de entendimento – as verdades internas ou ocultas reservadas ao iniciado, assim também o Cristianismo reserva aos buscadores sérios e aos pensadores mais profundos os Mistérios internos verdadeiros, que são unos e eternos em todos os credos e igrejas desde o princípio do mundo.

Esse significado verdadeiro, interior e transcendental é a Presença Real velada nos Elementos do Divino Sacramento: – a substância mística e a verdade simbolizadas sob o pão e o vinho das antigas orgias de Baco, e agora da nossa própria Igreja Católica.

Para aquele não sábio, que não pensa profundamente, que é supersticioso, os elementos físicos são a finalidade do rito; para o iniciado, o vidente, o filho de Hermes, eles são apenas os sinais externos e visíveis daquilo que é sempre, e necessariamente, interno, espiritual e oculto. [Edward Maitland. Citado por Samuel H. Hart, em seu Prefácio à Quinta Edição (pp. 12-13), da obra The Perfect Way (O Caminho Perfeito). Citação extraída da obra The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), Vol. II, pp. 123-124; grifos nossos]

Por Que a Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? A Figura do Cristo Sintetiza as Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

A fé cristã é a herdeira direta da velha fé romana. Roma foi a herdeira da Grécia, e a Grécia do Egito, de onde se originaram o legado de Moisés e o ritual hebraico.

O Egito foi apenas o foco de uma luz cuja verdadeira fonte e centro era o Oriente em geral – Ex Oriente Lux. Pois o Oriente, em todos os sentidos, geograficamente, astronomicamente e espiritualmente, é sempre a fonte de luz.

Mas, embora originalmente derivada do Oriente, a Igreja de nossos dias e de nosso país é modelada diretamente a partir da mitologia greco-romana, e de lá retira todos os seus ritos, doutrinas, cerimônias, sacramentos e festivais.

Portanto, a exposição que será feita sobre o Cristianismo Esotérico tratará mais especificamente dos mistérios do Ocidente, uma vez que suas ideias e sua terminologia são para nós mais atrativas e próximas do que as concepções não artísticas, a metafísica não familiar, o espiritualismo melancólico e a linguagem pouco sugestiva do Oriente.

Extraindo sua essência vital diretamente da fé pagã do velho mundo Ocidental, o Cristianismo mais proximamente se parece com seus pai e mãe imediatos, do que com seus ancestrais remotos, e será, então, melhor exposto com referência a suas fontes da Grécia e de Roma, do que com referência a seus paralelos bramânicos e védicos.

A Igreja cristã é católica, ou então ela não é nada que mereça, em absoluto, o nome de Igreja. Pois católico significa universal, todo abarcante: – a fé que sempre e em todos os lugares foi recebida. A prevalecente visão limitada desse termo é errada e prejudicial.

A Igreja cristã foi inicialmente chamada de católica porque ela abarcava, compreendia e tornou seu o passado religioso de todo o mundo. Reunindo em sua figura central – do Cristo – e em torno dessa figura todas as características, lendas e símbolos até então pertencentes às figuras centrais das dispensações anteriores, proclamando a unidade de toda aspiração humana, e formulando em um grande sistema ecumênico as doutrinas do Oriente e do Ocidente.

Assim, a Igreja católica é védica, budista, zend-avesta e semítica. Ela é egípcia, hermética, pitagórica e platônica. Ela é escandinava, mexicana e druídica. Ela é grega e romana. Ela é científica, filosófica e espiritual.

Encontramos em seus ensinamentos o panteísmo do Oriente, e o individualismo do Ocidente. Ela fala a língua e pensa os pensamentos de todos os filhos dos homens; e em seu templo todos os deuses estão em um lugar sagrado.

Eu sou vedantina, budista, helenista, hermética e cristã, porque eu sou católica. Pois nessa única palavra todo o Passado, Presente e Futuro estão abarcados.

Como Santo Agostinho e outros dos Padres (Pais) da Igreja verdadeiramente declararam, o Cristianismo não contém nada de novo a não ser o seu nome, estando próximo dos antigos desde o seu início. E as várias seitas, que retém apenas uma porção da doutrina católica, são apenas como cópias incompletas de um livro, do qual capítulos inteiros foram retirados, ou como representações de uma peça teatral na qual apenas alguns de seus personagens e de suas cenas foram mantidos.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. The Credo of Christendom (O Credo do Cristianismo), pp. 94-96; grifos nossos]

Como escreveu o apóstolo Paulo:

Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos. (…) Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova [e eterna] aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito [a compreensão lúcida ou espiritual] vivifica.” (2 Coríntios 3:3-6; grifos e colchetes nossos)

Da mesma forma, entendemos que o sonho-visão de Dom Bosco necessita ser interpretado, não com os olhos da letra, porém com os olhos do Espírito, ou seja, com a compreensão mística ou espiritual. Cabe lembrar que a palavra “místico” vem de um radical grego que significa silêncio, ou seja, verdadeira oração, meditação e contemplação. Somente assim a interpretação pode ser “escrita com o Espírito do Deus vivo, em tábuas de corações humanos”.

Nesse mesmo sentido, nos parece que o sonho-visão de Dom Bosco não deve ser interpretado literalmente, mas como ocorre com todas as grandes escrituras sagradas precisa deixar de lado a compreensão literal e ser buscado seu verdadeiro significado alegórico.

Aqui, na busca desse verdadeiro significado alegórico do sonho, o aspecto que nos parece decisivo é não interpretarmos os “montes” literalmente, mas em seu sentido alegórico verdadeiro dentro da simbologia cristã. Assim, segundo o “Novo” Evangelho da Interpretação, montes e montanhas significam estados de elevação espiritual, os quais sempre estão fundamentados e orientados por uma vida de verdadeira caridade ou amor. Por exemplo, Moisés fala com Deus em um monte; Jesus passa por sua gloriosa Transfiguração em um monte; passa por sua mais gloriosa ainda Crucificação em um monte, e temos ainda, entre outras, aquela maravilhosa passagem dos Evangelhos que é o Sermão da Montanha:

“Vendo ele as multidões, subiu à montanha. Ao sentar-se aproximaram-se dele os seus discípulos. E pôs-se a falar e os ensinava dizendo:
Felizes os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Felizes os mansos, porque herdarão a terra.
Felizes os aflitos, porque serão consolados.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros no coração, porque verão a Deus.
Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mateus 5:1-10)

Quando assim interpretado, o “cavar as minas escondidas em meio a estes montesde onde poderá surgir “uma riqueza inconcebível significa a elevação da consciência em profundo silêncio, meditação e contemplação, como coroamento de uma vida de caridade ou amor, que é unicamente onde “o Cristo em nós, a esperança de glória”, ou “o Deus vivo em corações humanos” poderá ser lúcida e verdadeiramente alcançado.

Tão somente dessa vivência poderá advir uma metafísica e uma ética realmente católica (não no sentido usual e errado dessa palavra), bem como realmente científica (não no sentido comum e degenerado dessa palavra). E tão somente daí poderá surgir uma interpretação lúcida e espiritual das “bíblias” das grandes religiões e de todos os textos sagrados do mundo.

Do mesmo modo, como uma necessidade lógica, tão somente daí poderão nascer novas e justas grandes instituições sociais, sem as quais nenhuma riqueza inconcebível jamais será possível. Ouro, prata, petróleo, minerais preciosos, por mais preciosos que sejam nunca alcançaram ou alcançarão a lúcida metafísica necessária para uma religião e uma ética realmente católicas e científicas. E sem essa grande reforma intelectual nunca se verá o aparecimento aqui (ou em qualquer outro lugar) da “terra prometida, que jorra leite e mel”, e onde haverá “uma riqueza inconcebível.

Conforme procuramos demonstrar em nossos sites e livros, a interpretação católica e científica das “bíblias” do mundo nos leva à existência de uma Filosofia Perene e à sua grande Lei da Fraternidade Universal. E essas são a “rocha” sobre a qual se pode construir grandes instituições sociais justas e competentes. Dentre essas grandes instituições, temos como a de maior importância (uma vez que dali partem as demais grandes instituições) uma verdadeira democracia participativa, ou uma verdadeira Democracia do Futuro.

Monumento à Democracia do Futuro (Sonho-Visão de Dom Bosco)

Essa Democracia do Futuro, também lógica e necessariamente, terá a forma de uma representação piramidal, em cascata ou árvore invertida, como é referida na ciência política, e que está claramente representada no monumento ao lado da Pedra Fundamental de Brasília. Isso não se trata de uma crença, mas de uma necessidade lógica, porque é a única forma de integrar os pilares, ou fundamentos éticos de uma verdadeira democracia: a liberdade, a igualdade de oportunidades, e a harmonia entre funções e capacidades. E essa ética (nova e eterna) está baseada nos princípios da Filosofia Perene e sua eterna e fundamental Lei da Fraternidade Universal.

Antes de concluirmos esse texto convém esclarecer e enfatizar alguns pontos, sobretudo visando neutralizar, por pouco que seja, as más interpretações que esse texto, inevitavelmente, merecerá.

Em primeiro lugar, devemos esclarecer que a nossa interpretação do sonho-visão de Dom Bosco é apresentada sob um caráter experimental, como uma hipótese interpretativa, e não como um ponto do qual estejamos certos de sua correção ou veracidade. Ou seja, é possível que a interpretação alegórica que estamos apresentando, como se tratando de um sonho realmente profético dentro da tradição do Cristianismo, e à luz do “Novo” Evangelho da Interpretação, como já foi escrito, não seja cabível de ser aplicada a esse sonho-visão de Dom Bosco.

Por outro lado, estamos afirmando, pelas razões já apresentadas, que fora dessa interpretação esse impressionante sonho-visão não se trata de um sonho profético e, assim sendo, verdadeiro nas suas previsões, bem como de elevada significância espiritual. Isso pela simples razão de que riquezas materiais, repetimos, jamais serão a base da terra prometida.

Isso posto, pode naturalmente surgir a questão acerca de quais os motivos (já que não temos certeza de nossa interpretação desse sonho-visão) de tornarmos pública essa possível relação desse sonho com a Democracia do Futuro? A resposta é que a apresentação ao público dessa possível relação nos permite, de um lado, apresentarmos, mesmo que de forma sintética e introdutória, os princípios da verdadeira catolicidade e da verdadeira cientificidade que afirmamos como elementos fundamentais para a grande reforma intelectual que deve embasar a metafísica e a ética das novas grandes instituições sociais, cujo centro é a Democracia do Futuro. Princípios esses que são inerentes à Filosofia Perene e à Lei da Fraternidade Universal, bem como a todas as tradições religiosas não degeneradas e a todas as Igrejas que mereçam esse nome.

De outro lado, o tornar pública essa interpretação e essa possível relação nos permite oferecer ao mundo religioso em geral (hoje empobrecido pelo domínio das interpretações literais e, portanto, idólatras e materialistas de seus principais símbolos sagrados) a oportunidade de reconhecer tais equívocos que denigrem e colocam a religião em contradição com a verdadeira ciência (cuja principal característica é a indução a partir de hipóteses experimentais) e com a verdadeira filosofia (cuja principal característica é a dedução a partir de hipóteses metafísicas). E também nos permite oferecer uma possibilidade de que esse grande sonho-visão de Dom Bosco seja, genuinamente, profético. Isso porque riquezas espirituais, e não materiais, serão sempre a base da “terra prometida, que jorra leite e mel”, e onde haverá “uma riqueza inconcebível.

Apenas para reforçar tais afirmações, consideremos a interpretação de outro ponto na afirmação de Dom Bosco, que sublinhamos repetidamente, que é a questão de que se trata de “uma riqueza inconcebível. Esse ponto, juntamente com a questão dos montes lhe é apresentado no sonho-visão sob a forma de várias repetições, fato que, a nosso ver, coloca esse ponto como um dos de maior importância em todo seu notável sonho: “Disse então uma voz repetidamente: – quando se vierem cavar as minas escondidas em meio a estes montes aparecerá aqui a terra prometida, que jorra leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.” (grifos nossos)

Petróleo, ouro, prata, minerais e pedras preciosas, por mais valiosos que sejam, como já foi dito, jamais serão a base da terra prometida, e são riquezas que, por valiosas que sejam, são perfeitamente concebíveis para o pensamento humano. Já a visão beatifica ou mística, segundo os relatos dos grandes místicos de todos os tempos e lugares, trata-se de uma Realidade tão exaltada, tão extra-ordinária, que o pensamento humano não consegue conceber, não consegue sequer imaginar.

Novamente, aqui não se trata de uma crença, mas de uma necessidade lógica, uma vez que o pensamento sempre é um comparar, um fazer dois, um fragmentar (por isso os antigos o chamavam de di-alética). E, mais do que isso, o pensamento é sempre um comparar de imagens e de conceitos, que são sempre alusões, ou reflexos de realidades noumênicas, e portanto fe-nomênicas. Sempre um comparar de “fotografias”, ou de “sombras”, como na Alegoria da Caverna do grande filósofo Platão. Enquanto que a faculdade gnosiológica despertada pela visão beatifica ou mística trata-se de uma gnose, um conhecer por fusão, e não a di-aletização, a separatividade inerente a uma comparação de imagens e conceitos, ou de “sombras”.

Tal faculdade é considerada uma quimera pelo materialismo, e como se fosse uma espécie de “milagre”, algo de sobrenatural pelas religiões decaídas, materializadas e idólatras, caracterizadas pelo literalismo e pelo sectarismo, e não pela verdadeira catolicidade inerente a toda Igreja que mereça esse nome, e nem tampouco pela verdadeira cientificidade e humildade inerentes ao reto e profundo pensar, que alcança a compreensão lógica, ao mesmo tempo, de sua importância e de seus limites.

Essa faculdade superior, unitiva e verdadeiramente intuitiva (no sentido etimológico de “ir-dentro”, intu-ire) deve se fazer presente na glória aludida pela bem-aventurança afirmada pelo Sermão da Montanha: “Felizes os puros no coração, porque verão a Deus.”

Finalmente, é essa faculdade que deve se fazer presente na sabedoria, que no Livro da Sabedoria (atribuído, mesmo que alegoricamente, a Salomão) deve caracterizar o justo e competente dirigente de nações. Ou no Livro do Provérbios ao afirmar: “Quando os justos governam, o povo se regozija; mas quando no poder estão os perversos, o povo geme.” (Provérbios, 29:2)

Ou em Platão ao afirmar: “Enquanto não forem, ou os filósofos reis nas cidades, ou os que agora se chamam reis e soberanos filósofos genuínos e capazes [N.A.: Platão usa esses adjetivos (genuínos e capazes) porque filo-sofia para ele é verdadeiro amor, busca e em alguma medida vivência da sabedoria, a qual, como vimos, é bem mais do que conhecimentos intelectuais] e se dê esta união do poder político com a filosofia, enquanto as numerosas naturezas que atualmente seguem um desses caminhos com exclusão do outro não forem impedidas forçosamente de o fazer, não haverá tréguas dos males, meu caro Gláucon, para as cidades, nem sequer, julgo eu, para o gênero humano (…). Mas isso é o que há muito tempo hesitava em dizer, por ver como seriam julgadas paradoxais essas afirmações. Efetivamente, é penoso ver que não há outra felicidade possível, particular ou pública.” (Platão, A República. Livro VII, 473 d; grifos e colchete nossos)

Então, por essa razão sublinhamos tantas vezes “riquezas inconcebíveis no sonho-visão de Dom Bosco, e apresentamos para isso uma interpretação plausível. Porque somente dessa riqueza, que só pode ser encontrada “escavando os montes” da elevação espiritual, será possível, aqui ou em qualquer outro lugar, o advento “da terra prometida, que jorra leite e mel”.

Essa antiga e bela alegoria trata-se da harmonia, da justiça, e do bem estar do povo, com dirigentes cuja ação esteja, em alguma medida que seja, sob inspiração da verdade viva, ou como escreveu o Apóstolo, esteja “escrita com o Espírito do Deus vivo, em tábuas de corações humanos”.

Assim (segundo essa interpretação possível e plausível do sonho-visão de Dom Bosco), é na exata medida em que, “escavando as minas nos montes”, se encontre e se ponha em prática a metafísica, a ética e as consequentes grandes instituições sociais que permitam essa sabedoria viva chegar aos cargos de maior responsabilidade, como previa o I Ching, o Livro da Sabedoria, o Livro dos Provérbios, Confúcio, Platão e tantos outros Filhos de Deus, que teremos uma verdadeira Democracia do Futuro, onde o povo se regozija”. É somente assim que teremos um a verdadeira democracia, na qual o governo seja do povo, pelo povo e para o povo. Ou seja, usando a antiga bela imagem do sonho-visão de Dom Bosco, é tão somente sob a luz dessa possível interpretação que se poderá ver o advento aqui da terra prometida, que jorra leite e mel”, e que “será uma riqueza inconcebível”. Tão somente sob essa possível e plausível interpretação não literal, porém mística e alegórica, é que o sonho-visão de Dom Bosco poderá se provar verdadeiramente profético, ou seja, correto em suas previsões e da maior elevação espiritual.

6. Outras Imagens dos Monumentos: Pedra Fundamental e Democracia do Futuro

7. Outras Citações que Fundamentam Nossa Interpretação do Sonho

Duas Coisas Que Devem Ser Claras Sobre o Cristianismo

“No presente momento há duas coisas da religião cristã que devem ser óbvias para todas as pessoas de discernimento; a primeira, que os homens não podem viver sem ela; e a segunda, que eles não podem viver com ela assim como ela está.” (p. 6) [Matthew Arnold, citado em The Perfect Way; or, The Finding of Christ – Anna Kingsford e Edward Maitland. Boston, Esoteric Publishing Company, 1888. 358 pp.]

Fé Sem Compreensão É Credulidade

“É verdade que é ‘a fé que salva’, mas a fé que não tem a compreensão não é fé, mas sim credulidade”. [Edward Maitland. Veja Preface em The Story of Anna Kingsford and Edward Maitland (A História de Anna Kingsford, Edward Maitland e do Novo Evangelho da Interpretação), e veja também Textos Selecionados, Citações e Glossário; grifos nossos]

Como Encontrar os Melhores É o Problema: Para Resolvê-lo Devemos Compreender a Inutilidade dos Atuais Sistemas de Governo

“Ora, o nosso Ideal da Lei da Fraternidade aplicada ao Governo exige o poder para os mais cultos e não para os ignorantes (…) como encontrar os melhores? O Ideal é que sejam os melhores que governem; mas como encontrá-los, eis o problema. Cada um de nós que estuda deve tentar resolver esse problema, e as sugestões que aqui estou dando talvez contenham algumas indicações para essa solução.

Mas não poderão resolvê-lo enquanto não compreenderem a inutilidade da atual maneira de governar – ou de não governar – e enquanto não aceitarem o Ideal de que o Governo deve ser exercido pelos melhores. Quando concordarmos nisso, então poderemos reunir os nossos esforços para encontrar um meio de achar e escolher os melhores e colocá-los em situação onde bem sirvam ao país. E isso tem de ser feito por amor ao povo, ao povo que “perece por falta de sabedoria”, e que nunca, na sua ignorância, poderá se salvar.” (Annie Besant. Os Ideais da Teosofia, p. 32-34; grifos nossos)

Problema do Momento É Como Encontrar o Melhor Homem e Colocá-lo no Poder: Sem Isso Nenhuma Felicidade É Possível Para o Estado

“O problema do momento é como encontrar o melhor homem, e depois colocá-lo no poder. Se vocês perguntarem: “O que você quer dizer por ‘o melhor’?” Eu respondo: “O mais sábio, aquele de vontade mais forte, o mais resoluto e o mais inegoísta.” Essas são as qualificações do Governante, e sem essas qualificações no Governante, nenhuma felicidade é possível para o Estado.” (Annie Besant. Os Ideais da Teosofia, p. 28; grifos nossos)

Sugestão (Annie Besant, N. Sri Ram e Jai Prakash Narain) de um Sistema Político Coerente com a Lei da Fraternidade Universal

“Algum tempo atrás Pandit Nehru, em um de seus discursos, lançou um tanto vagamente a ideia de que algum dia, ao invés do atual sistema de eleições para Parlamento indiano, algum sistema, menos direto e mais adequado às condições da Índia, pudesse ser considerado.

Desde então, o Sr. Jai Prakash Narain (…) tem mais definidamente proposto, no lugar da atual forma de democracia na Índia, um sistema algo similar ao proposto pela Dra. Annie Besant nos dias de sua atuação em favor da libertação da Índia.

Ela não pensava que a regra “um homem, um voto” fosse boa para qualquer país, e muito especialmente ela não a recomendava para a Índia. Desse modo, ela delineou, na sua proposta de Constituição “The Commonwealth of India Bill” [1925], um sistema que teria uma base bem ampla ao nível das vilas (e correspondentes nas cidades), com voto adulto e uma grande autonomia nesse nível, e então se estreitaria gradualmente como uma pirâmide, através do nível dos Distritos, dos Estados (ou Províncias), até o Governo Central. As franquias para esses Conselhos nesses níveis superiores deveriam estar baseadas em crescentes qualificações de serviço, experiência, educação, etc.

Seu esquema, se tivesse sido apoiado pelos outros líderes políticos da época, particularmente pelo Partido do Congresso, teria sido aceito pela população da Índia como um todo. O princípio de uma qualificação razoável para o voto, e para tornar-se membro dos Conselhos, teria sido firmemente estabelecido. Mas, seus apelos foram em vão. O Sr. Gandhi posicionou-se pelo sufrágio de massa, e isso decidiu a questão.

O Sr. Jai Prakash Narain também vislumbra uma base forte e praticamente autossuficiente para os Conselhos das Vilas, vila significando também uma cidade pequena, um distrito, ou bairro nos grandes municípios, mas eleições indiretas desses Conselhos para o Conselho do Distrito, desse último para as legislaturas provinciais ou estaduais, e dessas para o Parlamento de toda a Índia.

O Sr. Jai Prakash Narain é ainda uma voz solitária no terreno inóspito das atuais condições políticas na Índia. A descrição dessas condições como um terreno inóspito pode parecer um exagero, mas quando vemos os vários interesses de grupos, que são tão influentes e a variedade de conselhos para os mais diferentes assuntos que precisam ser tratados, não podemos deixar de sentir a verdade da descrição da Dra. Besant acerca da democracia, em sua presente forma, como o governo por meio da ignorância de múltiplas cabeças.” [N. Sri Ram. On the Watch Tower (Na Torre de Vigia), p. 86; grifos nossos]

A Democracia Participativa, ou Democracia do Futuro, na Visão do Professor C.B. Macpherson

“Volto finalmente à questão de como uma democracia participativa poderia funcionar se conseguíssemos os requisitos para chegar até ela. (…)

Se examinarmos as questões primeiramente em termos gerais, (…) o modelo mais simples que mais adequadamente pudesse ser chamado de democracia de participação seria um sistema piramidal com democracia direta na base e democracia por delegação em cada nível depois dessa base. Assim, começaríamos com democracia direta ao nível de (…) vizinhança – discussão concreta face a face e decisão por consenso majoritário, e eleição de delegados que formariam um conselho no nível mais próximo seguinte, digamos, um bairro urbano, ou subúrbio, ou redondezas. (…) Assim prosseguiria até o vértice da pirâmide, que seria um conselho nacional para assuntos de interesse nacional, e conselhos locais e regionais para questões próprias desses segmentos territoriais. Seja em que nível for, além do primeiro, em que as decisões finais sobre diferentes assuntos fossem tomadas, as questões teriam certamente de ser formuladas por um conselho. (…) Isso pode dar a impressão de diferir muito do controle democrático. Mas acho que é o melhor ao nosso alcance. O que é necessário, em cada estágio, para tornar democrático o sistema, é que os delegados encarregados das decisões e formulação dos problemas, eleitos desde os níveis inferiores, sejam politicamente responsáveis em relação aos que os elegeram, sendo passíveis de não reeleição. (…)

Para resumir a análise até aqui feita da perspectiva de um sistema de conselhos piramidais como modelo de democracia de participação, podemos afirmar que na medida em que as condições para a transição a um sistema de participação forem conseguidas em qualquer país (…) um sistema piramidal poderia operar. (…)

(…) É muito mais provável que qualquer transição seja feita sob a liderança de uma frente popular ou uma coalizão de partidos socialistas ou social-democratas. (…) A questão concreta é, pois, se haverá algum meio de combinar uma estrutura de conselho piramidal com um sistema partidário em competição.

A combinação de um sistema democrático piramidal direto e indireto com a continuação de um sistema partidário parece essencial. Nada, a não ser um sistema piramidal, incorporará qualquer democracia direta numa estrutura de âmbito nacional de governo, e exige-se certa significativa quantidade de democracia direta parar o que quer que se possa chamar de democracia de participação. Ao mesmo tempo, partidos políticos em concorrência devem ser presumidos, e partidos cujas reivindicações não casem com coerentemente com o que se possa chamar de democracia liberal deverão ser repelidos.

Não apenas é, provavelmente, inevitável a combinação da pirâmide e dos partidos: ela pode ser positivamente desejável. (…)

Resta uma questão: poderá esse modelo de democracia participativa ser chamado de democracia liberal? Acho que pode. Evidentemente não é ditatorial ou totalitário. A certeza disso não é apenas a existência de partidos alternativos (…). A garantia está mais na presunção de que nenhuma versão do modelo de democracia participativa poderia existir ou permanecer existente sem um forte e generalizado senso do valor do princípio ético da democracia liberal (que é o núcleo de seus principais modelos): – os direitos iguais de todo homem e toda mulher ao pleno desenvolvimento e ao emprego de suas capacidades. (…) Na medida em que prevalecesse um forte senso do alto valor dos direitos iguais ao auto desenvolvimento, o modelo de democracia participativa estaria na melhor tradição da democracia liberal.” (C.B. Macpherson. A Democracia Liberal: Origens e Evolução, pp. 110-116)