Problemas Mundiais e a Lei da Fraternidade Universal (14): Modelos Políticos Atuais e a Geração da Miséria

OS PROBLEMAS MUNDIAIS E A FRATERNIDADE UNIVERSAL:
Os Modelos Políticos Atuais e a Geração da Miséria
(Capítulo XIV da obra “Teosofia e Fraternidade Universal“)

153 – Não há um intelectual, mesmo um intelectual burguês, que seja capaz de negar a evidência de que é possível acabar com a fome e a miséria através das forças atuais de produção. Isso só não acontece por causa da desorganização sociopolítica do Planeta. (H. Marcuse, citado por F. Gabeira, A Vida Alternativa, p. 9)

154 – Todas as matérias, não importa quão especializadas, ligam-se a um centro; são como raios de luz emanando de um sol. O centro é constituído por nossas convicções mais básicas, pelas ideias que realmente têm força para nos mover.

(…) Se não forem fiéis à realidade, a anuência a tal conjunto de ideias tem de conduzir inevitavelmente a uma catástrofe. (E.F. Schumacher, O Negócio é Ser Pequeno, p. 80)


Depois do exame das correntes de pensamento dominantes na segunda metade do século XX, bem como das limitações das suas principais instituições ou modelos de organização sociopolítica, devemos concluir evidenciando a ligação direta das mesmas com os problemas mundiais, ainda que isso já possa ter sido vislumbrado ao longo das análises apresentadas anteriormente.

Iniciemos, então, examinando quais os principais problemas mundiais em nossa época, os quais por certo devem estar relacionados, ou mesmo em grande medida devem ter sido gerados por essas correntes e seus modelos, uma vez que elas dominaram o panorama das ideias na segunda metade do século XX.

Dizemos “em grande medida” porque, a bem da justiça, não podemos ignorar que as outras alternativas que se apresentaram ao mundo, especialmente na primeira metade do século XX, isto é, o Nazismo e o Fascismo, constituem correntes e modelos ainda mais tragicamente equivocados do que os dois examinados, e que hoje são hegemônicos.

Do mesmo modo, os exemplos alternativos nos dias de hoje, embora de menor significância no contexto mundial, também são ainda piores do que os examinados. Nos referimos sobretudo aos fundamentalismos religiosos, a exemplo do caso atual do Irã. Todos esses também contribuíram para a miséria do século XX, ou ainda contribuem para a miséria do século XXI. Portanto, não podemos atribuir todos os males da atualidade ao Liberalismo e ao Marxismo. Na verdade, é certo que devamos sentir uma boa dose de gratidão em relação a essas duas correntes, pois, bem ou mal, foram elas que nos salvaram de uma tragédia muito maior, que seria um domínio mundial nazifascista.


Os Grandes Problemas Mundiais

Feita essa ressalva, passemos à análise dos grandes problemas mundiais. Há uma pequena passagem de Radha Burnier, na qual ela faz uma bela síntese dos principais problemas hoje enfrentados pela humanidade:

155 – O Scylla e o Charybdis da atualidade são de um lado o desastre ecológico, e de outro, o subdesenvolvimento. (The Theosophist, fev/89)

Não pode haver dúvida de que a situação tragicamente deplorável – e potencialmente convulsiva – de grande parte das populações que habitam os países pobres, onde vivem duas terças partes da população mundial, bem como a ameaça crescente de catástrofes ambientais, representam uma síntese dos perigos e dos problemas que desafiam o mundo atual.

O subdesenvolvimento tem por trás de si a miséria, a violência e o abandono de milhões e milhões de seres humanos. Esse é um quadro completamente inaceitável, o qual cedo ou tarde gerará uma indignação e uma revolta incontrolável, trazendo consigo o risco inclusive de guerras nucleares. E as crescentes formas de poluição e de destruição impostas ao meio ambiente natural apontam para desastres que já são cientificamente previsíveis em um horizonte não muito distante.


A Rota de Colisão da Modernização

Por que as diferenças entre a riqueza das nações aumentou tanto ao longo dos dois últimos séculos? O que é que está por detrás das crescentes agressões ao ambiente natural? A seguinte citação, de um dos poucos cientistas sociais brasileiros de renome internacional, falecido no início da década dos anos 80, após lecionar por vários anos na Universidade do Sul da Califórnia, Alberto Guerreiro Ramos, aponta na direção de uma resposta para essas questões:

156 – Os resultados atuais da modernização, tais como a insegurança psicológica, a degradação da qualidade da vida, a poluição, o desperdício à exaustão dos limitados recursos do planeta, e assim por diante, mal disfarçam o caráter enganador das sociedades contemporâneas. A autodefinição das sociedades industriais avançadas como portadoras da razão está sendo diariamente solapada.

Esse clima de perplexidade pode viabilizar uma reformulação teórica de enorme magnitude. (A Nova Ciência das Organizações, p. 22)

Ou seja, esses problemas são os resultados da modernização. E o que está por detrás dessa corrida insana entre as nações pela dita modernização? Ora, o próprio significado geralmente atribuído à palavra “modernização” nesse contexto alude, sobretudo, à capacidade de competir economicamente em termos internacionais. O que está por detrás da verdadeira compulsão pela modernização, portanto, é a desenfreada ou incontrolável competição entre as nações, numa espécie de guerra sem declaração formal, de todos contra todos, no cenário internacional.


A Impotência dos Modelos Atuais frente à Modernização

E por que é tão incontrolável (e, assim, tido como necessário) esse processo, cujo único fim previsível são as catástrofes? Por que não existe força capaz de impedi-lo? Pela simples razão de que, como vimos anteriormente, não existe no mundo de hoje força capaz de regular, de controlar ou de harmonizar a atuação das grandes organizações. E elas, por sua vez, não podem deixar de buscar sempre ganhos de produtividade (que significa a capacidade de produzir mais e melhor com a mesma quantidade de recursos, ou até com menos recursos), e outras transformações desse tipo, isto é, de buscarem a modernização, ou seja, uma maior competitividade econômica internacional.

As grandes organizações estão obrigadas à dita modernização, isto é, aos ganhos de produtividade, etc., porque elas sabem que se deixarem de agir assim serão destruídas, na medida em que serão derrotadas na competição com as outras gigantescas organizações com as quais disputam. E como também vimos, são elas que têm como fantoches os governos, pelo menos dentro da debilidade e da desonestidade que são absolutamente inerentes ao modelo liberal. Elas arrastam, desse modo, irresistivelmente, os países e as regiões do mundo para essa guerra sem declaração formal, de todos contra todos.

Ora, em um cenário como esse, se estabelece essa espécie de corrida maluca, corrida essa que nada nem ninguém, dentro do contexto dos atuais modelos de organização social, possui a força suficiente para controlar ou impedir. Isto porque, como vimos, esses modelos, quer liberais ou marxistas, não garantem ao mesmo tempo liberdade, oportunidades iguais e adequação entre funções e capacidades (sobretudo nos processos de seleção dos governantes). E, assim sendo, inevitavelmente não selecionam as pessoas mais qualificadas, ética e tecnicamente, como seus governantes.

Isso ocorre em relação aos dirigentes do Estado, pois nas grandes empresas a busca pela competitividade impõe que se atenda à regra da adequação entre funções e capacidades, o que as torna ainda mais poderosas em relação aos governos estatais, porque seus dirigentes não raro são mais capazes que os dirigentes políticos das nações. Um verdadeiro absurdo, porém, infelizmente, bastante real.

A essa inerente e inevitável incompetência dos governantes, soma-se, no caso do modelo liberal, a fraqueza ou debilidade de uma organização social pouco coesa, frouxa e fragmentada. Nesse modelo, como vimos, os governantes geralmente são fantoches que têm suas caríssimas campanhas eleitorais financiadas pelas grandes organizações. E, quando em raras vezes isso não ocorre, e chega ao governo algum tipo de demagogo-populista – que é praticamente a única outra possibilidade dentro de regras políticas tão incompetentes e tão corruptoras – então esse governo demagógico-populista, mesmo que pretendesse tomar medidas realmente saneadoras, seria totalmente impotente ante a força avassaladora das grandes corporações (públicas e privadas). A história recente apresenta claros exemplos desse tipo, a começar pelo Brasil, com suas cíclicas rupturas constitucionais, seus golpes militares, e assim por diante.

Como regra geral, como sabemos, os países de modelo marxista também não evitaram o destino de serem tragados pela força dessa guerra pela competitividade imposta pelos países com modelos liberais. Essa derrota, no entanto, deve-se menos aos méritos desses últimos, e muito mais ao colapso interno gerado pela violência, pela rigidez e pela excludência da falta de liberdade, a qual afronta a dignidade e embota a criatividade, somente podendo resultar, portanto, numa insatisfação e numa ineficiência generalizadas.

É importante que se perceba que esse processo, que como vimos é incontrolável, dentro do quadro dos atuais modelos, é o responsável tanto pelas crescentes agressões ao ambiente natural, quanto pelo quadro de excludência econômica e social do subdesenvolvimento. Examinemos um pouco mais detalhadamente como isso se dá, tomando para análise exemplos concretos.


O Exemplo da Devastação da Floresta Amazônica

Consideremos o caso da crescente destruição da floresta Amazônica, um dos maiores crimes ecológicos contra a natureza e contra a humanidade, e também o caso da miséria em que se encontram muitos milhões de brasileiros, isto é, examinemos o caso do subdesenvolvimento brasileiro. Esses exemplos, é claro, por analogia servirão para explicar o caso de outras graves agressões ecológicas, bem como a miséria, até mesmo bem maior que a do Brasil, que avilta tantas outras nações.

Quais os agentes imediatos da destruição da floresta Amazônica no Brasil? Uma combinação da miséria de muitos imigrantes que afluem para aquela região em busca de empregos ou de um pedaço de terra que lhes permita sobreviver, com a busca pela riqueza por parte de indivíduos e empresas que buscam aquelas terras para explorar a madeira, criar gado, plantar soja, explorar minérios, e assim por diante. O motivo de muitos é a sobrevivência, que estava ameaçada pela miséria e falta de empregos em suas regiões de origem, e de outros são as oportunidades de lucros maiores do que obteriam em suas regiões de origem. Esses são os agentes diretos da exploração mal planejada, que resulta na destruição que pode ser irreparável de espécies animais e vegetais, que compõem aquele ambiente natural cuja riqueza e importância ecológica não tem similar no planeta.

E por que esse processo destrutivo tão grave não é impedido em seus aspectos criminosos, e ordenado e regulado, científica e planejadamente, quanto à exploração possível e devida da floresta, dentro de um critério de desenvolvimento sustentável? Obviamente, por causa da incompetência e da impotência dos governantes, cuja causa, conforme já mostramos antes, é a incompetência e a desonestidade inerentes ao processo eleitoral de escolha dos governantes, acrescidas da organização frouxa (e, portanto, que não gera suficiente força política ou de coerção), que caracterizam as principais instituições do modelo de organização liberal.

Se poderia argumentar que tivemos longos períodos intercalados de autoritarismo civil ou militar. Mas o que isso prova? Esse fato apenas reforça o argumento exposto da enorme fraqueza e incompetência do modelo liberal. De qualquer modo, as ditaduras, civis ou militares, não são modelos que atualmente dominem o pensamento das elites, nem sequer das elites militares. Quando essas rupturas constitucionais inevitavelmente ocorrem, sobretudo nos países pobres, ocorrem muito mais pela incompetência e crise das instituições liberais (ou mesmo marxistas). E, por não se constituírem modelos acabados e duradouros, acabam refluindo para os modelos dominantes. Os quais novamente se mostram incompetentes, geram crises, etc., e dão espaço para novas rupturas e golpes de Estado, civis ou militares.

O exemplo concreto em questão, da destruição da floresta Amazônica, portanto, está clara e diretamente ligado à incompetência e à fraqueza dos governos, que é característica central das democracias liberais. E que dizer então da miséria e da violência que caracterizam o subdesenvolvimento brasileiro? A sua perpetuação, isto é, a incapacidade da nação superar esse quadro trágico, ano após ano, década após década, também está diretamente ligada à incompetência e à debilidade dos governos geradas pelo modelo liberal, uma vez que no Brasil ainda não tivemos a aplicação de um modelo marxista de organização.


Origens do ‘Subdesenvolvimento’: Exploração Colonialista

Mas, a questão de como se gerou inicialmente essa miséria exige uma análise mais ampla, até mesmo porque existem países que aplicam o modelo liberal e que são ricos, e onde a miséria absoluta foi praticamente abolida, ou existe em uma dimensão muitíssimo menor do que nos países pobres. E, assim sendo, esses países são frequentemente apresentados como modelos a serem copiados.

Ou seja, a questão que se impõe aos subdesenvolvidos, e que poucos parecem compreender claramente é: Se esse modelo deu certo lá, por que não dá certo aqui? Por que esses países ricos venceram no passado e continuam vencendo no presente a corrida pela modernização, isto é, pela produtividade e pela qualidade de suas economias, e não raro continuam até mesmo aumentando a vantagem relativa que os separa dos países pobres?

A resposta para a questão acerca do início dessas grandes diferenças de riquezas entre os países está, evidentemente, ligada ao período de exploração colonialista. Com o advento das grandes navegações e, sobretudo, com o advento da revolução industrial alguns países passaram a exercer, à força, um domínio econômico e de outros tipos sobre outros países ou regiões do planeta. Essas nações estabeleceram “colônias”, as quais serviram tanto como fontes de matérias primas baratas, quanto como mercados consumidores cativos para a crescente industrialização das metrópoles.

No Brasil, apenas para dar um exemplo, não podemos ignorar que havia leis durante o período colonial que proibiam o estabelecimento de qualquer tipo de indústria, coisa que só mudou a partir do momento em que a família real, expulsa de Portugal pelos exércitos de Napoleão, veio estabelecer-se por algum tempo no Brasil. A razão da existência dessas leis visava, é claro, garantir que o Brasil permanecesse apenas como um mercado consumidor de produtos manufaturados pela metrópole, ou pelo menos comercializados através dela.


A Importância da Industrialização

Por que isso é tão importante? Precisamos perceber claramente que, a menos que um país possua excepcionais riquezas naturais (por exemplo, os países que possuem muito petróleo em seu território, ou uma população pequena em relação a uma dimensão territorial muito grande), não existe outra maneira de alcançar o patamar de riqueza atingido pelas nações mais ricas do planeta senão através de um intensivo processo de industrialização.

Isso é assim porque, a cada vez que uma matéria prima passa por um processo de transformação industrial de qualquer tipo, é agregado a ela um valor adicional que inclui o ganho com o lucro obtido nesse processo de transformação. Em economia dá-se o nome de “valor agregado” a esse diferencial obtido em cada momento do processo produtivo. A industrialização permite, portanto, a geração de uma estrutura econômica muito mais complexa, com mais etapas de transformação no processo produtivo, e em cada uma dessas etapas mais valor agregado é gerado.

Essa maior complexificação industrial gera vários efeitos positivos quanto à geração de maiores riquezas. Por exemplo, gera uma taxa de ocupação maior da força de trabalho; gera uma complementação inter-industrial que permite processos produtivos com um número cada vez maior de etapas de transformação; gera a necessidade da complementação de uma gama muito ampla de serviços de todo o tipo; e essa complementação entre os setores da agricultura, da extração de riquezas do solo, da indústria, dos serviços e do comércio gera ganhos de produtividade impressionantes, sobretudo através da crescente mecanização e automação dos processos produtivos de todo tipo.

Tudo isso aconteceu primeiro em algumas nações e, principalmente, como vimos, graças às vantagens obtidas sobre as outras, a ferro e a fogo, através da dominação colonialista. Quando esse processo já estava bastante avançado ou amadurecido, então o discurso dominante passou a ser diferente, e chegamos, após duas grandes guerras mundiais (que, no fundo, foram guerras entre nações ricas pela disputa de espaços coloniais ou neocoloniais), a esse período de globalização econômica caracterizado pela ampla e “livre” competição internacional.


As Ilusões da “Livre” Competição Internacional

Essa ampla e “livre” globalização econômica, ou seja, essa guerra com as armas da “modernização” (produtividade, etc) se caracteriza por alguns aspectos ilusivos e muito perversos. Primeiro, a dita “liberdade” vale apenas para alguns fatores econômicos, isto é, vale de um modo geral para os produtos primários, produtos industrializados inclusive máquinas e para os serviços. Mas, não vale para o fator trabalho. Esse fator econômico não goza da liberdade de deslocar-se à vontade. Isso, evidentemente, visa garantir que as vantagens obtidas por alguns, não sejam ameaçadas por movimentos migratórios em busca de melhores salários, oportunidades de emprego, etc. A liberdade da “modernização”, portanto, é mais interessantemente “moderna” para alguns do que para outros.

Em segundo lugar, essa liberdade seletiva (que existe apenas para determinados fatores econômicos) inerente à globalização e à modernização, é um processo do tipo “raposa dentro do galinheiro”. Vejamos se não é bem o caso. Como vimos, trata-se de uma luta por produtividade, etc., entre competidores que não partiram em condições de igualdade, uma vez que não podemos ignorar o período anterior a esse, de séculos de exploração colonialista. Hoje, portanto, a competição se estabelece entre forças muito desiguais e num jogo de guerra como esse, no qual o que pode mais sofre menos, essa liberdade seletiva apenas tende a manter as diferenças iniciais, e, na verdade, a acentuá-las, o que caracteriza claramente um processo no qual os mais fracos não têm chance alguma de vitória. Vemos, portanto, que essa liberdade é do tipo “raposa dentro do galinheiro”, muito interessante somente para um dos lados.

Até mesmo de um ponto de vista meramente relativo às matérias primas é possível perceber que os mais pobres jamais poderão alcançar, dentro das atuais regras do jogo, o padrão de riqueza alcançado pelos mais ricos. Apenas para citar um exemplo conhecido, se toda a população mundial consumisse o petróleo com a mesma média per capita dos EUA ou do Canadá, por exemplo, todas as reservas conhecidas de petróleo seriam consumidas em pouco mais de seis anos, segundo os dados da “British Petroleum” (BP – Statistical Review of World Energy, 06/85 e 06/87).

Ora, mesmo que esses dados possam ser discutidos, e que as reservas a serem descobertas dobrassem, isso não mudaria muito o panorama que queremos demonstrar. Ou seja, que obviamente não é possível que todos os países pobres reproduzam o padrão de desenvolvimento e riqueza dos países ricos. Isso é uma impossibilidade material, pura e simplesmente. Desse modo, mesmo por esse ângulo, podemos ver que a liberdade e a modernização que “deu certo” para os países ricos não tem a menor chance de dar igualmente “certo” para os países pobres, nos quais é sempre bom lembrar, vivem duas terças partes da população mundial. A maioria, no entanto, parece não ter conhecimento desses duros fatos da realidade mundial.

Portanto, esses países que são exemplos de lugares onde o modelo liberal “deu certo”, estabeleceram uma prosperidade que só se tornou possível às custas da miséria de grande parte da população mundial, e continuam “dando certo” às custas de formas neocolonialistas de exploração, as quais lhes garantem uma vitória na guerra ou, como dissemos, na “corrida maluca” da modernização. Vitória essa que garante a manutenção desse estado de coisas tão injusto.


O Significado de “Dar Certo” Internacionalmente

Não são poucos aqueles que, em vista dessas condições, afirmam que o Brasil é um dos países que ainda podem “dar certo”, ou seja, é um país de futuro, devido às suas dimensões territoriais, riquezas naturais, etc., que lhe permitiria ser uma espécie de último vagão no trem dos países que se beneficiam da exploração dos demais.

Mesmo que isso seja verdade, poderíamos chamar a isso “dar certo”? Isto é, estabelecermos um belo nível de vida às custas da miséria de outros países pobres? Podemos chamar a isso “dar certo”, mas não podemos deixar de reconhecer que do ponto de vista do bem-estar da humanidade como um todo, esse é um modelo fracassado, que implica na exclusão e na miséria de muitos ou, em resumo, numa imoralidade imensa.

Estando claro, desse modo, como deu-se a origem do enorme diferencial de riqueza entre as nações, e como esse quadro de exclusão e injustiça se perpetua, podemos agora perceber que, especialmente no que diz respeito às possibilidades de superação da miséria dos países pobres – dentro de um cenário como esse, cuja realidade apenas os inocentes ou os espertos podem ignorar, ou pretender ignorar – fica ainda mais evidente o fracasso do modelo liberal.


A Necessidade de um Modelo para o Bem-estar de Todos

Um modelo de organização sociopolítica como o liberal, que, como vimos, se caracteriza por um péssimo processo de escolha dos governantes e pela fraqueza ou pequena capacidade de coerção ou força política desses dirigentes, significa, na melhor das hipóteses, a manutenção do atual estado de coisas.

Esses países pobres, portanto, têm como sua única esperança o advento de novas instituições sociais.

Muito especialmente de um novo modelo político que garanta a seleção de governantes moralmente confiáveis e tecnicamente competentes, bem como que garanta a esses governantes uma grande capacidade de coerção, a fim de que possam controlar, disciplinar e harmonizar em prol do bem-estar coletivo o poder das gigantescas organizações. Essa capacidade somente poder advir, de forma natural e benigna, através de uma boa organização de toda a população.

Certamente a aguda percepção intuitiva e intelectual de N. Sri Ram, que foi Presidente Internacional da Sociedade Teosófica, compreendia as linhas gerais desses fatos ao afirmar que:

157 – A política, que envolve o bem-estar e o progresso de todos que constituem o Estado e afeta outros Estados, é uma atividade séria, que demanda as melhores mentes com um espírito desinteressado, e não deveria ser um jogo de poder jogado com a preponderância de interesses pessoais e de grupo. (On the Watch Tower, p. 82)

158 – Os problemas de um país como a Índia, onde a variedade de línguas, costumes e outras diferenças estão profundamente arraigadas, não podem ser tratados adequadamente, como deveriam ser, senão por uma sábia compreensão e distribuição do poder político. Esse deve ser distribuído entre aquelas pessoas – como encontrá-las é o verdadeiro problema – que o empunharão com a necessária capacidade, experiência e entendimento. (On the Watch Tower, p. 87)

A Dra. Annie Besant, com quem N. Sri Ram trabalhou muitos anos, também percebia as grandes linhas desse problema, conforme podemos ler nas citações abaixo:

159 – O problema do momento é como encontrar o melhor homem, e depois colocá-lo no poder. Se vocês perguntarem: “O que você quer dizer por ‘o melhor’?” Eu respondo: “O mais sábio, aquele de vontade mais forte, o mais resoluto e o mais inegoísta.” Essas são as qualificações do Governante, e sem essas qualificações no Governante, nenhuma felicidade é possível para o Estado. (Os Ideais da Teosofia, p. 28; grifos nossos)

160 – Ora, o nosso Ideal da Fraternidade aplicado ao Governo exige o poder para os mais cultos e não para os ignorantes (…) como encontrar os melhores? O Ideal é que sejam os melhores que governem; mas como encontrá-los, eis o problema. Cada um de nós que estuda deve tentar resolver esse problema, e as sugestões que aqui estou dando talvez contenham algumas indicações para essa solução.

Mas não poderão resolvê-lo enquanto não compreenderem a inutilidade da atual maneira de governar – ou de não governar – e enquanto não aceitarem o Ideal de que o Governo deve ser exercido pelos melhores. Quando concordarmos nisso, então poderemos reunir os nossos esforços para encontrar um meio de achar e escolher os melhores e colocá-los em situação onde bem sirvam ao país. E isso tem de ser feito por amor ao povo, ao povo que “perece por falta de sabedoria”, e que nunca, na sua ignorância, poderá se salvar. (Os Ideais da Teosofia, p. 32-34; grifos nossos)

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