A “Mulher” Não é uma Mulher, Mas Sim a Alma e a Intuição

“É a hostilidade inveterada entre os poderes ocultos do mal e a “Mulher” das Escrituras que está representada na passagem do Apocalipse na qual aparece o dragão, “quando soube que já não tinha muito tempo”, ao “despejar água de sua boca como uma enchente para levá-la embora”

A iminência da restauração da intuição reconhecida pelo dragão – que não é outra senão sua velha sedutora no Éden – se deve ao início do reinado de Miguel, “o grande príncipe que defendeu os filhos do povo de Deus”. Isso porque, como o representante do princípio da equidade ou equilíbrio em relação aos fatores masculino e feminino na natureza humana, Miguel representa a restauração da Intuição a seu devido trono. Intuição que é por meio da qual se dá o discernimento do espírito e, assim, da verdadeira natureza do dragão como sendo a antítese do Espírito.

A negação da Intuição é uma característica marcante do Sacerdotalismo, seja ele religioso ou científico. E a Intuição nunca esteve tão flagrantemente ausente de ambos os tipos do Sacerdotalismo quanto nos dias de hoje.

Mas a pergunta que deve ser respondida em primeiro lugar é quem, ou o que, é a intuição precisamente. E como não há ninguém tão competente para responder a isso quanto ela própria, é nas palavras em que ela revelou a si mesma novamente – expressamente para os propósitos da Nova Interpretação – que a resposta será dada.

Como veremos, desde o início a Intuição restaura a doutrina – Universal nas Igrejas pré-cristãs, mas suprimida pelo Sacerdotalismo ao assumir a denominação de cristão – que é a única que a torna, ou a Bíblia, ou mesmo a própria existência, inteligíveis. Essa é a doutrina da multiplicidade das vidas terrenas:

“Intuição é experiência inata; aquilo que a alma sabe dos idos e antigos anos.

Conhecimento inato e percepção das coisas, essas são as fontes da revelação: a alma do homem o instrui, já tendo aprendido pela experiência.

Ninguém é profeta, a não ser aquele que sabe: o instrutor do povo é um homem de muitas vidas.

E a Iluminação é a Luz da Sabedoria, pela qual o homem percebe os segredos celestiais.

Essa Luz é o Espírito de Deus dentro do homem, mostrando-lhe as coisas de Deus”. (1)

“Os Livros Místicos tratam apenas de entes espirituais? Nem o próprio Tentador é matéria, mas antes aquele que dá precedência à matéria. Adão é antes a força intelectual: ele é Terreno. Eva é a consciência moral: ela é a Mãe dos que Vivem.

Então, o intelecto é o princípio masculino, e a intuição, o princípio feminino. E os Filhos da Intuição, ela própria caída, finalmente recuperarão a verdade e redimirão todas as coisas.

Por sua culpa, de fato, que a consciência moral da humanidade tornou-se sujeita à força intelectual, e que dessa forma proliferam todo o tipo de maldade e confusão, já que o desejo dela está direcionado para o intelecto e, até agora, ele exerceu domínio sobre ela.

Mas o Fim profetizado pelo Vidente não está muito longe. Então, a Mulher será exaltada, vestida com o Sol e levada ao Trono de Deus. E seus Filhos farão Guerra ao Dragão, e alcançarão a Vitória sobre ele.

A intuição, desse modo, pura e sendo como uma Virgem, será a Mãe e a Redentora de seus Filhos caídos, os quais ela mantinha como Escravos do seu Esposo, a Força intelectual.

Moisés, portanto, conhecendo os Mistérios da Religião dos egípcios, e tendo aprendido com seus Ocultistas o valor e a significação de todos os Pássaros e Animais sagrados, os transmitiu como Mistérios para o seu próprio Povo. (…) Ele ensinou a seus Iniciados o Espírito dos Hieróglifos celestiais e ordenou-lhes que quando celebrassem Festivais diante de Deus carregassem em procissão, com música e dança, aqueles dos Animais sagrados que, por suas significações interiores, estivessem relacionadas com a ocasião.

Agora, desses Animais, ele selecionou principalmente os Machos do Primeiro Ano, sem Mancha ou Defeito, para significar que é necessário, acima de todas as coisas, que o homem dedique ao Senhor seu intelecto e sua razão, desde o princípio e sem reserva alguma. E fica evidente – pela história do mundo em todas as épocas, principalmente nestes últimos tempos – que ele foi muito sábio ao ensinar isso. Pois, o que foi que levou os homens a renunciar às realidades do espírito e a propagar falsas teorias e ciências corrompidas, negando todas as coisas que não sejam a aparência que pode ser apreendida pelos sentidos externos, e desse modo a se transformar no próprio Pó da Terra? É o seu intelecto que, não estando santificado, os desviou do caminho reto; é a força da mente neles que, estando corrompida, é a causa de sua própria ruína e da de seus seguidores.

Então, assim como o intelecto está apto a ser o grande Traidor do Céu, assim também é ele a força pela qual os homens, seguindo sua intuição pura, podem também compreender a verdade. Por essa razão está escrito que os Cristos são submissos a suas Mães. De modo algum isso quer dizer que o intelecto deva ser desonrado; pois ele é o Herdeiro de Todas as Coisas, desde que tão somente ele seja verdadeiramente gerado e não um Bastardo.

E, além de todos esses símbolos, Moisés ensinou seu Povo a ter, acima de todas as coisas, Repúdio à Idolatria. O que é, então, a Idolatria e o que são os Falsos Deuses?

Criar um Ídolo é materializar Mistérios espirituais. Os Padres, desse modo, são Idólatras, os quais, chegando depois de Moisés e entregando-se a escrever aquelas coisas que ele, pela Palavra de Boca a Ouvido, tinha transmitido à Israel, substituíram as verdadeiras coisas significadas, pelos símbolos materiais, e derramaram sangue inocente nos puros Altares do Senhor.

Também são Idólatras aqueles que compreendem as coisas dos sentidos, onde tão somente as coisas do espírito estão referidas, e que escondem as verdadeiras Feições dos Deuses por meio de representações materiais e falsas. Idolatria é materialismo, o compartilhado e original Pecado dos Homens, que substitui o Espírito pela Aparência, a substância pela ilusão e conduz o tanto o ser moral como o intelectual, ao erro, de forma que substituem o inferior pelo superior e o que está no Fundo pelo que está no Alto. É o falso Fruto que atrai os sentidos externos, a Tentação da Serpente do Começo do Mundo. Até que o Homem e a Mulher Místicos tenham comido desse Fruto, conheciam apenas as Coisas do Espírito, e as achavam suficientes. Mas após sua Queda, começaram a apreender também a Matéria e a ela deram a Preferência, tornando-se Idólatras. E seu Pecado, e a Mácula gerada por aquele falso Fruto, corromperam o Sangue de toda a Raça dos Homens, de cuja Corrupção os Filhos de Deus os teriam redimido.” (2)

“Tudo que é verdadeiro é espiritual. (…) Nenhum dogma é real se não for espiritual. Se for verdadeiro e, contudo, lhe parecer ter uma significação material, saiba que não o resolveu. É um mistério: busque sua interpretação. Aquilo que é verdadeiro é tão somente para o espírito.

Pois a matéria perecerá, e tudo que a ela pertence, mas a Palavra do Senhor continuará a existir para sempre. E como ela poderia perdurar se não fosse puramente espiritual, uma vez que, ao perecer a matéria não mais seria compreensível?” (3)

A Igreja tem toda a verdade; mas os sacerdotes a materializaram.

Em seu sentido real as doutrinas são verdades divinas, fundamentadas na natureza do Ser. Mas apresentadas segundo o sacerdotalismo elas são absurdos blasfemos. Elas são verdadeiras de acordo com o significado dado por Deus; não conforme o significado dado pelos padres.

A Bíblia foi escrita por pessoas de intuição, para pessoas de intuição, e do ponto de vista das pessoas de intuição. Ela tem sido interpretada por pessoas superficiais, para pessoas superficiais, e do ponto de vista das pessoas superficiais. Mesmo sendo o mais oculto e místico dos livros, ela tem sido exposta por pessoas sem conhecimento oculto ou percepção mística.”

NOTA
(1) Vestida Com o Sol, I, ii.
(2) Vestida Com o Sol, I, v.
(3) Vestida Com o Sol, I, iii.

(Edward Maitland. O “Novo” Evangelho da Interpretação, pp. 27-32; alguns grifos nossos, porém vários estão no original)

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