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7 – OS PROBLEMAS MUNDIAIS E OS MODELOS

POLÍTICOS DOMINANTES (NÃO REVISADO)

 

            Após termos examinado as correntes de pensamento dominantes nesta segunda metade do século XX, bem como as limitações das suas principais instituições, especialmente seus modelos de organização política, devemos agora examinar a ligação direta destes sistemas políticos com os problemas mundiais, ainda que isto já possa ter sido vislumbrado ao longo das análises apresentadas anteriormente.

            Iniciemos, então, explicitando quais os principais problemas mundiais em nossa época, os quais por certo devem estar relacionados, ou mesmo em grande medida devem ter sido gerados por estas correntes e seus modelos, uma vez que elas dominaram o panorama das idéias neste século.

            Dizemos “em grande medida” porque a bem da justiça não podemos ignorar que as alternativas que se apresentaram ao mundo, especialmente na primeira metade do século, isto é, o Nazismo e o Fascismo, constituem correntes e modelos ainda mais tragicamente equivocados do que os dois examinados e que hoje são hegemônicos. Do mesmo modo, os exemplos alternativos nos dias de hoje, embora de menor significância no contexto mundial, são ainda piores do que os examinados. Nos referimos, sobretudo, aos fundamentalismos religiosos, a exemplo do caso do Irã. Todos estes também contribuíram ou ainda contribuem para a miséria deste século e, portanto, não podemos atribuir todos os males do século ao Liberalismo e ao Marxismo. Na verdade, é certo que devamos sentir certa gratidão a estas duas correntes, pois foram elas que nos salvaram de uma tragédia muito maior, que seria um domínio mundial nazi-fascista.

 

Os Principais Problemas Mundiais

 

            Feita esta ressalva, passemos à análise dos principais problemas mundiais

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que dizem respeito, de um lado, ao abismo de riqueza existente entre as nações, isto é, ao contraste entre os assim chamados países desenvolvidos e subdesenvolvidos, e de outro, às agressões e desequilíbrios do meio ambiente natural, com os desastres ecológicos que podem daí resultar.

            O subdesenvolvimento tem por trás de si a miséria, a violência e o abandono de milhões e milhões de seres humanos. Este é um quadro completamente inaceitável, o qual cedo ou tarde gerará uma indignação e uma revolta incontrolável, trazendo consigo o risco inclusive de guerras nucleares. E as crescentes formas de poluição e de destruição impostas ao meio ambiente natural apontam para desastres que já são cientificamente previsíveis em um horizonte não muito distante. Por que as diferenças entre a riqueza das nações aumentou tanto ao longo dos dois últimos séculos? O que é que está por detrás das crescentes agressões ao ambiente natural?

 

A “Modernização” Como Causa Imediata dos Problemas

 

            A seguinte citação de Alberto Guerreiro Ramos, um dos poucos cientistas sociais brasileiros de renome internacional, aponta na direção de uma resposta para estas questões. Guerreiro Ramos, é importante salientar, teve seus direitos políticos cassados durante o autoritarismo militar e foi também criticado e marginalizado pela esquerda. Ele faleceu na década dos anos 80 (após lecionar na Universidade do Sul da Califórnia). Vejamos a citação:

“Os resultados atuais da modernização, tais como a insegurança psicológica, a degradação da qualidade da vida, a poluição, o desperdício à exaustão dos limitados recursos do planeta, e assim por diante, mal disfarçam o caráter enganador das sociedades contemporâneas. A autodefinição das sociedades industriais avançadas como portadoras da razão está sendo diariamente solapada. Esse clima de perplexidade pode viabilizar uma reformulação teórica de enorme magnitude.” (A Nova Ciência das Organizações, p. 22)

            Ou seja, estes problemas são os resultados da chamada modernização. E o que está por detrás desta corrida insana entre as nações pela dita modernização? Ora, o próprio significado da palavra “modernização” alude, sobretudo, à

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capacidade de competir economicamente em termos internacionais. O que está por detrás da verdadeira compulsão pela modernização, portanto, é a desenfreada ou incontrolável competição entre as nações, numa espécie de guerra econômica de todos contra todos no cenário internacional. E por que é tão incontrolável (e, assim, tido como necessário) este processo, cujo único fim previsível são as catástrofes? Por que não existe força capaz de controlá-lo?

 

Por Que a “Modernização” Torna-se Necessária?

 

            A resposta é simples e diz respeito ao fato de que, como vimos anteriormente, não existe no mundo de hoje força capaz de regular, de controlar ou de harmonizar a atuação das grandes organizações. E elas, por sua vez, não podem deixar de buscar sempre ganhos de produtividade (que significa a capacidade de produzir mais e melhor com a mesma quantidade de recursos, ou até com menos recursos), e outras melhorias deste tipo, isto é, de buscarem a modernização, o que significa uma maior competitividade econômica internacional.

 

A Competição Entre as Grandes Organizações

 

            As grandes organizações estão obrigadas à dita modernização, ou seja, aos ganhos de produtividade etc., porque elas sabem que se deixarem de agir assim serão destruídas, na medida em que serão derrotadas na competição com as outras gigantescas organizações com as quais disputam. E como também vimos, são elas que têm como fantoches os governos, pelo menos dentro da debilidade e da imoralidade que são absolutamente inerentes ao modelo liberal. Elas arrastam, deste modo, irresistivelmente os países para esta guerra econômica.

            Esta guerra tem inclusive forçado a criação de grandes blocos econômicos de países, pois as grandes organizações dos países pequenos e médios necessitam de uma dimensão de mercado que lhes possibilite ganhos de escala, a fim de que sejam capazes de competir de igual para igual com aquelas dos grandes países.

 

A Fraqueza do Modelo Liberal

 

            Assim sendo, vemos que no mundo se estabelece esta espécie de corrida incontrolável pela modernização. O importante é compreendermos que, dentro do

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cenário dos atuais modelos de organização política, nada nem ninguém possui a força suficiente para controlar ou impedir este processo. Isto porque, como vimos, estes modelos, quer liberais ou marxistas, não garantem ao mesmo tempo liberdade, oportunidades iguais e adequação entre funções e capacidades, nos processos de seleção dos governantes. E, assim sendo, não promovem uma boa seleção dos governantes.

            Isto ocorre, sobretudo, em relação aos dirigentes do Estado, pois nas grandes empresas a busca pela competitividade impõe que se atenda à regra da adequação entre funções e capacidades, pelo menos em termos técnicos (pois em termos ético-morais a seleção das empresas também é questionável). Isto as torna ainda mais poderosas em relação aos governos estatais, porque seus dirigentes são freqüentemente mais capazes, pelo menos tecnicamente, do que os dirigentes políticos das nações. Um verdadeiro absurdo, porém real.

            A esta inerente e inescapável incompetência dos governantes, soma-se no caso do modelo liberal a fraqueza ou debilidade de uma organização social frouxa, fragmentada. Neste modelo, como vimos, os governantes não raro são fantoches que têm suas caríssimas campanhas eleitorais financiadas pelas grandes organizações. Isto, é claro, é um dos principais mecanismos geradores da imensa corrupção que é absolutamente inerente às democracias liberais. E a corrupção em grande escala resulta em uma deformação de todo o processo de desenvolvimento, pois as grandes decisões políticas, econômicas etc., acabam sendo viciadas e desviadas por causa dos interesses privatistas de indivíduos e grupos que as influenciam.

            Nas vezes em que isto aparenta não ocorrer, e chega ao governo algum tipo de demagogo-populista, que é a única outra possibilidade dentro de regras políticas tão incompetentes quanto corruptoras, então este governo demagógico-populista, mesmo que pretendesse tomar medidas realmente saneadoras, seria totalmente impotente ante a força avassaladora das grandes corporações (públicas e privadas). A história recente apresenta claros exemplos deste tipo, a começar pelo Brasil, com suas cíclicas rupturas constitucionais e seus golpes militares.

 

A Incompetência do Modelo Marxista

 

            Os países que adotaram o modelo marxista, a exemplo da ex-União Soviética, também não evitaram o destino de serem tragados pela força desta

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guerra pela competitividade imposta pelos países mais industrializados organizados de forma democrático-liberal. Esta derrota, no entanto, deve-se menos aos méritos destes últimos, e muito mais ao colapso interno gerado pela rigidez e pela excludência da falta de liberdade, a qual afronta a dignidade e embota a criatividade, somente podendo resultar, portanto, numa insatisfação e numa ineficiência generalizadas.

            É importante que se perceba que este processo, que como vimos é incontrolável dentro do quadro dos atuais modelos, é o responsável tanto pelas crescentes agressões ao ambiente natural, quanto pelo quadro de excludência econômica e social do subdesenvolvimento. Examinemos um pouco mais detalhadamente como isto se dá, tomando para análise exemplos concretos.

 

O Exemplo da Destruição da Floresta Amazônica

 

            Consideremos o caso da crescente destruição da floresta Amazônica, um dos maiores crimes ecológicos contra a natureza e contra a humanidade, e também o caso da miséria em que se encontram, pelo mínimo, cerca de trinta milhões de brasileiros, isto é, examinemos o caso do subdesenvolvimento brasileiro. Estes exemplos, é claro, por analogia servirão para explicar o caso de outras graves agressões ecológicas, bem como a miséria, até mesmo bem maior que a do Brasil, que avilta tantas outras nações.

            Quais os agentes imediatos da destruição da floresta Amazônica? Uma combinação da miséria de muitos imigrantes que afluem para aquela região em busca de empregos ou de um pedaço de terra que lhes permita sobreviver, com a busca pela riqueza por parte de indivíduos e empresas que se deslocam para aquelas terras para explorar a madeira, criar gado, plantar, explorar minérios, e assim por diante. O motivo de muitos é a sobrevivência, que estava ameaçada pela miséria e falta de empregos em suas regiões de origem, e de outros são as oportunidades de lucros maiores do que obteriam em suas regiões de origem. Estes são os agentes diretos da exploração mal planejada, que resulta na destruição talvez irreparável de espécies animais e vegetais, que compõem aquele ambiente natural cuja riqueza e importância ecológica não têm par no planeta.

            E por que este processo destrutivo tão grave não é impedido em seus aspectos criminosos? Por que não é ordenado e controlado de forma científica e planejada quanto à exploração possível e devida da floresta, dentro de um critério de desenvolvimento sustentável? Obviamente, por causa da incompetência e da impotência dos

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governantes, cuja causa, conforme já mostramos antes, é a incompetência e a desonestidade inerente ao processo eleitoral de escolha dos governantes, acrescida da organização frouxa (e, portanto, que não gera suficiente força política ou de coerção), que caracterizam as principais instituições do sistema político liberal.

            Se poderia argumentar que tivemos longos períodos intercalados de autoritarismo militar. Mas o que prova isto? Apenas, de um lado, reforça o argumento exposto da enorme fraqueza e da incompetência do modelo liberal, e de outro, que os comandantes militares em questão, certamente também influenciados pelas idéias dominantes, não honraram suas corporações, suas missões, nem seus juramentos de proteger e zelar pelos interesses maiores da nação. De qualquer modo, as ditaduras militares não são modelos que dominem o pensamento das elites, nem sequer das elites militares, e quando inevitavelmente ocorrem, sobretudo nos países pobres, ocorrem muito mais pela incompetência e crise das instituições liberais (ou mesmo marxistas), e não por se constituírem modelos acabados e duradouros. Prova disto é que acabam sempre refluindo para os modelos dominantes. Os quais novamente se mostram incompetentes, geram crises etc., e dão espaço para novos golpes ditatoriais.

            O exemplo concreto em questão, da destruição da floresta Amazônica, portanto, está clara e diretamente ligado à incompetência e à fraqueza dos governantes, que é característica central das democracias liberais. E que dizer então da miséria, da corrupção e da violência que caracterizam o subdesenvolvimento brasileiro? A sua perpetuação, isto é, a incapacidade da nação superar este quadro trágico, ano após ano, década após década, também está, é claro, diretamente ligada à incompetência e à debilidade dos governantes gerada pelo modelo liberal, conforme vimos anteriormente ao analisarmos os efeitos desvirtuadores e nocivos da influência das grandes organizações sobre o processo de desenvolvimento. No caso brasileiro fica patente a relação deste quadro com o modelo liberal, até mesmo porque neste país ainda não tivemos a aplicação de um modelo marxista de organização.

 

As Origens do Subdesenvolvimento

 

            Mas, a questão de como se gerou inicialmente esta miséria exige uma análise mais ampla, sobretudo porque há países que aplicam o modelo liberal e que são ricos, e onde a miséria absoluta foi praticamente abolida, ou existe em uma dimensão muitíssimo menor do que nos países pobres. E, assim sendo, estes

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países são freqüentemente apresentados como modelos a serem copiados. Em outras palavras, a questão que se impõe aos subdesenvolvidos, e que poucos parecem compreender claramente é: se este modelo deu certo lá, por que não consegue dar certo aqui?

            Ou seja, por que estes países ricos venceram no passado e continuam vencendo no presente a corrida pela modernização, isto é, pela produtividade e pela qualidade de suas economias, e não raro até mesmo aumentando a vantagem relativa que os separa dos países pobres?

            A resposta para a questão do início destas grandes diferenças de riquezas entre os países está, evidentemente, ligada ao período de exploração colonialista. Com o advento das grandes navegações e, sobretudo, com o advento da revolução industrial alguns países passaram a exercer pela força um domínio econômico e de outros tipos sobre outros países ou regiões do planeta. Estas nações estabeleceram “colônias”, as quais serviram tanto como fontes de matérias primas baratas, quanto como mercados consumidores cativos para a crescente industrialização das metrópoles.

            Aqui no Brasil, por exemplo, havia leis durante o período colonial que proibiam o estabelecimento de qualquer tipo de indústria, coisa que só mudou a partir do momento em que a família real, expulsa de Portugal pelos exércitos de Napoleão, veio estabelecer-se por algum tempo no Brasil. A razão da existência destas leis visava, é claro, garantir que o Brasil permanecesse apenas como um mercado consumidor de produtos manufaturados pela metrópole, ou pelo menos comercializados através dela.

 

A Industrialização e a Geração do Valor Agregado

 

            Por que isto é tão importante? Precisamos perceber claramente que, a menos que um país possua excepcionais riquezas naturais (por exemplo, os países que possuem muito petróleo em seu território, ou uma população pequena em relação a uma dimensão territorial muito grande), não existe outra maneira de alcançar-se o patamar de riqueza atingido pelas nações mais ricas do planeta senão através de um intensivo processo de industrialização. Isto porque, a cada vez que uma matéria prima passa por um processo de transformação industrial de qualquer tipo, é agregado a ela um valor adicional que inclui o ganho com o lucro obtido neste processo de transformação. Em economia dá-se o nome de “valor agregado” a esse diferencial obtido em cada momento do processo

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produtivo. A industrialização permite, portanto, a geração de uma estrutura econômica muito mais complexa, com mais etapas de transformação no processo produtivo, sendo que a cada uma destas etapas mais valor é adicionado.

            Esta maior complexificação industrial gera vários efeitos positivos quanto à geração de maiores riquezas. Por exemplo, gera uma taxa de ocupação maior da força de trabalho; gera uma complementação inter-industrial que permite processos produtivos com um número cada vez maior de etapas de transformação; gera a necessidade da complementação de uma gama muito ampla de serviços de todo o tipo; e esta complementação entre os setores da agricultura e da exploração de outras matérias primas, da indústria e dos serviços e comércio gera ganhos de produtividade impressionantes, sobretudo, através da crescente mecanização dos processos produtivos de todo tipo.

            Tudo isto aconteceu primeiro em algumas nações e graças, principalmente, às vantagens obtidas sobre as outras, a ferro e a fogo, através da dominação colonialista. Quando este processo já estava bastante avançado, então o discurso dominante passou a ser diferente, e chegamos, após duas grandes guerras mundiais (que, no fundo, foram guerras entre nações ricas pela disputa de espaços coloniais ou neocoloniais), a este período de globalização econômica caracterizado pela “livre” competição internacional.

 

A Relativa e Conveniente Liberdade Econômica

 

            Esta ampla e “livre” globalização econômica, ou seja, esta guerra com as armas da “modernização” (produtividade etc.) se caracteriza por alguns aspectos ilusivos e muito perversos. Primeiro, a dita “liberdade” vale apenas para alguns fatores econômicos, isto é, vale de um modo geral para os produtos primários, produtos industrializados, inclusive máquinas, e para os serviços. Mas, não vale para o fator trabalho. Este fator econômico não goza da liberdade de deslocar-se à vontade. Isto, evidentemente, visa garantir que as vantagens obtidas por alguns, não sejam ameaçadas por movimentos migratórios em busca de melhores salários, oportunidades de emprego etc. A liberdade da “modernização”, portanto, é mais interessantemente “moderna” para alguns do que para outros.

            Em segundo lugar, esta liberdade seletiva (que existe apenas para determinados fatores econômicos) inerente à globalização e à modernização, é um processo do tipo “raposa dentro do galinheiro”. Vejamos se não é bem o caso. Como vimos, trata-se de uma luta por produtividade etc., entre competidores que

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não partiram em condições de igualdade, uma vez que não podemos ignorar o período anterior a este, de séculos de exploração colonialista. Hoje, portanto, a competição se estabelece entre forças muito desiguais e num jogo de guerra como este, no qual o que pode mais sofre menos, esta liberdade seletiva apenas tende a manter as diferenças iniciais, e muitas vezes até mesmo a acentuá-las, o que caracteriza claramente um processo no qual os mais fracos não têm chance alguma de vitória. Vemos, portanto, que esta liberdade é como a liberdade da raposa dentro do galinheiro, muito interessante apenas para um dos lados.

 

A Finitude dos Recursos Naturais

 

            Até mesmo do ponto de vista meramente relacionado ao consumo das principais matérias primas é possível perceber que os mais pobres jamais poderão alcançar, dentro das atuais regras do jogo, o padrão de riqueza alcançado pelos mais ricos. Apenas para citar um exemplo conhecido, examinemos uma projeção para a população mundial do nível de consumo per capita de petróleo, que ainda hoje é um gerador de energia indispensável.

            Se levarmos em conta o consumo médio per capita dos EUA, do Canadá, ou mesmo da Alemanha e do Japão, que são exemplos de países ricos, que aconteceria? Esta questão não é nem um pouco absurda, uma vez que se imaginamos que os países pobres devem imitar o exemplo dos países ricos, então estes também desenvolverão um padrão de consumo e uma matriz energética bastante parecidos. Neste caso, aconteceria que todas as reservas conhecidas de petróleo seriam consumidas em pouco mais de seis anos, segundo os dados da “British Petroleum” (BP – Statistical Review of World Energy, 06/85 e 06/87).

            Examinemos um pouco estes dados. As reservas mundiais de petróleo seriam de 95.200 milhões de TEP’s (toneladas equivalentes de petróleo). A população dos EUA é de cerca de 250 milhões e seu consumo em 1986 foi de cerca de 750 milhões de TEP’s. Enquanto sua população é vinte vezes menor do que a população mundial, seu consumo de petróleo é apenas quatro vezes menor que o consumo mundial, que em 1986 era de cerca de 3.000 milhões de TEP’s. Portanto, se projetamos seu consumo per capita (750 dividido por 250 = 3), pela população mundial que é de 5.000 milhões (cinco bilhões) de pessoas, teremos um consumo mundial cinco vezes maior, ou seja, de 15.000 milhões de TEP’s. Ora, dividindo as reservas mundiais pelo que seria o consumo mundial (95.200 por 15.000 = 6,3) vemos que em pouco mais de seis anos teríamos esgotado as reservas mundiais.

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            Assim sendo, mesmo que estes dados possam ser discutidos, e que as reservas a serem descobertas dobrassem, isto nos daria um horizonte de apenas doze anos, o que não mudaria muito o panorama que queremos demonstrar. Ou seja, que obviamente não é possível que todos os países pobres reproduzam o padrão de desenvolvimento e riqueza dos países ricos. Isto é uma impossibilidade material, pura e simplesmente. Deste modo, mesmo por este ângulo, podemos ver que a liberdade e a modernização que “deu certo” para os países ricos não tem a menor chance de dar igualmente “certo” para os países pobres nos quais, é sempre bom lembrar, vivem duas terças partes da população mundial. A maioria, no entanto, parece não ter conhecimento destes duros fatos da realidade mundial.

 

“Dar Certo” Por Meio da Exploração

 

            Portanto, estes países que são exemplos de lugares onde o modelo liberal “deu certo”, estabeleceram uma prosperidade que só se tornou possível à custa da miséria de grande parte da população mundial, e continuam “dando certo” à custa de formas neocolonialistas de exploração, que lhes garantem uma vitória na guerra ou, como dissemos, na “corrida maluca” da modernização, que garante a manutenção deste estado de coisas tão injusto.

            Muitas pessoas, em vista destas condições gerais, afirmam que o Brasil é um país que ainda pode “dar certo” ou um país de futuro. Isto porque devido aos seus recursos naturais, às suas dimensões territoriais etc., o Brasil poderia ser uma espécie de último vagão no trem dos países que se beneficiam da exploração dos demais. Mesmo que isto fosse verdade, deveríamos chamar a isto de “dar certo”? Isto é, estabelecermos um belo nível de vida à custa da miséria da Bolívia, do Paraguai etc.? Podemos chamar a isto “dar certo” se quisermos, mas não podemos deixar de reconhecer que do ponto de vista do bem-estar da humanidade como um todo, este é um modelo fracassado, que implica na impossibilidade de uma solução global para o problema do subdesenvolvimento e, portanto, implica em uma imoralidade imensa.

            Estando claro, deste modo, como se deu a origem do enorme diferencial de riqueza entre as nações, e como este quadro de exclusão e injustiça se perpetua, podemos agora perceber que, especialmente no que diz respeito às possibilidades de superação da miséria dos países pobres (dentro de um cenário como este, cuja realidade apenas os inocentes ou os espertos podem ignorar, ou pretender ignorar)

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fica ainda mais evidente o fracasso do modelo liberal.

            Um modelo de organização sócio-política como o liberal que, como vimos, se caracteriza por um péssimo processo de escolha dos governantes e pela fraqueza e pequena capacidade de coerção (ou força política) destes dirigentes, significa na melhor das hipóteses a manutenção do atual estado de coisas. Em vista disso, não é de surpreender que os países ricos o considerem tão interessante.

 

A Necessidade de Um Novo Modelo Político

 

            Os países pobres, no entanto, têm como sua única esperança o advento de novas instituições, sobretudo de um novo modelo político que garanta a seleção de governantes moralmente confiáveis e tecnicamente competentes, bem como que garanta a estes governantes uma grande capacidade de coerção, a fim de que possam controlar, disciplinar e harmonizar em prol do bem-estar coletivo o poder das gigantescas organizações, capacidade esta que só poder advir de forma natural e benigna através de uma boa organização de toda a população.

 

 


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