Ideias Regem o Mundo

“Ouça o antigo, muito antigo axioma de que “Ideias regem o mundo”; e à medida que as mentes dos homens recebam novas ideias, deixando de lado as velhas e estéreis, o mundo avançará; imensas revoluções surgirão a partir delas; instituições (e até mesmo credos e poderes, poderiam acrescentar) ruirão ante a sua marcha progressiva, aniquilados pela sua própria força inerente (…). Será tão impossível resistir à sua influência quando chegar a hora, quanto impedir o avanço da maré — com toda a certeza.” [K.H. The Mahatma Letters to A.P. Sinnett (Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett), n. 93, p. 425]


Todos os Assuntos Ligam-se à Metafísica e à Ética (que Transcendem a Ciência Comum): Se Não Forem Verdadeiras Conduzem às Catástrofes

“Todos os assuntos, não importa quão especializados, ligam-se a um centro; são como raios emanando de um sol. O centro é constituído por nossas convicções mais básicas, pelas ideias que realmente têm força para nos mover. Por outras palavras, o centro consiste de Metafísica e Ética, de ideias que — gostemos ou não disso — transcendem o mundo dos fatos. Por transcenderem esse mundo, não podem ser provadas ou reprovadas pelo método científico comum. Isso não quer dizer, contudo, que elas sejam puramente “subjetivas” ou “relativas”, ou meras convenções arbitrárias. Têm de ser fiéis à realidade, embora transcendam o mundo dos fatos — um aparente paradoxo para nossos pensadores positivistas. [NT: que defendem a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro.] Se não forem fiéis à realidade, a adesão a tal conjunto de ideias tem de conduzir inevitavelmente a uma catástrofe.” (Ernst F. Schumacher. O Negócio é Ser Pequeno, p. 80)


Grandes Ideias do Século XIX Negam a Hierarquia de Níveis no Universo

“Apesar de as ideias do século XIX negarem ou eliminarem a hierarquia de níveis no universo, a noção de uma ordem hierárquica é instrumento indispensável à compreensão. Sem o reconhecimento de ‘Níveis de Ser’ ou ‘Graus de Significação’ não podemos tornar o mundo inteligível. Talvez a tarefa do homem — ou simplesmente, se se preferir, a felicidade do homem — seja alcançar um grau superior de realização de suas potencialidades, um nível de ser ou ‘grau de significação’ mais elevado do que lhe advém ‘naturalmente’: não podemos sequer estudar essa possibilidade sem o reconhecimento prévio de uma estrutura hierárquica. Na medida em que interpretarmos o mundo através das grandes e vitais ideias do século XIX, permaneceremos cegos a essas diferenças de nível, por termos sido cegados.” (Ernst F. Schumacher. O Negócio é Ser Pequeno, p. 82)


Mundo em Má Condição Devido Religiões e Filosofias Distantes da Verdade

“Para serem verdadeiras, a religião e a filosofia devem oferecer a solução de todos os problemas. Que o mundo esteja em tal má condição moralmente é uma evidência conclusiva de que nenhuma de suas religiões e filosofias jamais possuíram a verdade (…).

As explicações corretas e lógicas sobre a questão dos problemas dos grandes princípios duais — o certo e o errado, o bem e o mal, a liberdade e o despotismo, a dor e o prazer, o egoísmo e o altruísmo — são tão impossíveis para elas hoje quanto o eram 1881 anos atrás. Elas estão tão longe da solução como sempre estiveram; mas para esses deve haver em algum lugar uma solução consistente, e se nossas doutrinas provarem sua competência em oferecê-la, então o mundo será rápido em confessar que essa deve ser a verdadeira filosofia, a verdadeira religião, a verdadeira luz, que dá a verdade e nada mais do que a verdade.” [Mahachohan, carta com Suas visões. Letters from the Masters of the Wisdom (Cartas dos Mestres de Sabedoria), 1st Series, n. 1, p. 9]


Credos Exotéricos Geram Opressão e Luta. Somente Filosofia Esotérica Pode Gerar Estado Intermediário e Consequente Alívio do Sofrimento

“Sob a dominação e a influência dos credos exotéricos, sombras grotescas e distorcidas de realidades (…), sempre haverá a mesma opressão dos fracos e dos pobres e a mesma luta tempestuosa dos ricos e poderosos entre si mesmos. É somente a filosofia esotérica, a harmonização espiritual e psíquica do homem com a natureza, que, através da revelação de verdades fundamentais, pode trazer aquele tão desejado estado intermediário entre os dois extremos do Egoísmo humano e do Altruísmo divino e, finalmente, conduzir ao alívio do sofrimento humano.” [Adepto. Letters from the Masters of the Wisdom (Cartas dos Mestres de Sabedoria), 2nd Series, n. 82, p. 157]


Único Objetivo de Nosso Esforço: Difusão da Verdade Adaptada aos Vários Estágios de Desenvolvimento e às Diferentes Culturas

“O único objetivo pelo qual esforçar-nos é o melhoramento da condição do HOMEM por meio da difusão da verdade adaptada aos vários estágios de seu desenvolvimento e do país em que ele habita e pertence. A VERDADE não tem marca de propriedade e não sofre por causa do nome sob o qual ela é promulgada — desde que o referido objetivo seja alcançado.” [K.H. The Mahatma Letters to A.P. Sinnett (Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett), n. 85, p. 399]


Propósito que Todos Temos em Nosso Coração: Difusão da VERDADE Através de Qualquer Canal Religioso

“Esse não é apenas o desejo de qualquer um de nós dois, conhecidos pelo Sr. Sinnett, ou de ambos, mas a expressa vontade do próprio Chohan. A eleição da Sra. Kingsford (Dra. Anna Kingsford) não é um assunto de sentimentos pessoais entre nós mesmos e aquela senhora, mas se apoia inteiramente na questão da conveniência de ter-se na chefia da Sociedade (Teosófica), num lugar como Londres, uma pessoa bem adaptada ao padrão e aspirações do público (ainda) ignorante (acerca das verdades esotéricas) e, portanto, malicioso. (…) é uma questão se a referida senhora está capacitada para o propósito que todos nós temos em nosso coração, a saber, a disseminação da VERDADE por meio das doutrinas esotéricas, transmitidas através de qualquer canal religioso, e a eliminação do materialismo crasso e dos preconceitos e ceticismo cegos.” [K.H. The Mahatma Letters to A.P. Sinnett (Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett), n. 85, p. 398]


Fé Sem Compreensão É Credulidade

“É verdade que é ‘a fé que salva’, mas a fé que não tem a compreensão não é fé, mas sim credulidade”. [Edward Maitland. Veja Preface em The Story of Anna Kingsford and Edward Maitland (A História de Anna Kingsford, Edward Maitland e do Novo Evangelho da Interpretação), e veja também Textos Selecionados, Citações e Glossário.]


Duas Coisas da Religião Cristã

“No presente momento há duas coisas da religião cristã que devem ser óbvias para todas as pessoas de discernimento; a primeira, que os homens não podem viver sem ela; e a segunda, que eles não podem viver com ela assim como ela está”. [Matthew Arnold. Citado em The Perfect Way (O Caminho Perfeito), veja Textos Selecionados, Citações e Glossário.]


A Interpretação de Suas Bíblias

“Aquilo que vocês precisam na Terra é a interpretação de suas Bíblias, e de todas as Escrituras que contém a sabedoria oculta, o mistério de que São Paulo tão frequentemente mencionava como existindo desde os primórdios do mundo”. [P. ex: Romanos 16:25] (Edward Maitland, editor. Uma Mensagem à Terra, p. 69)


Cristianismo e Budismo São Partes de um Todo Contínuo e Harmonioso

“O Cristianismo, então, foi introduzido no mundo com uma relação especial com as grandes religiões do Oriente, e sob a mesma regência divina. E muito longe de ser concebido como um rival e suplantador do Budismo, ele era a direta e necessária continuação desse sistema. Os dois são apenas partes de um todo contínuo e harmonioso, no qual a parte que veio por último é somente o indispensável acréscimo e complemento da parte que veio anteriormente”. [Anna Kingsford e Edward Maitland. The Perfect Way (O Caminho Perfeito), pp. 250-251]


Da União do Buda e do Cristo Nascerá a Esperada Redenção do Mundo

“Da união espiritual na fé una do Buda e do Cristo nascerá a esperada redenção do mundo”. [Anna Kingsford e Edward Maitland. The Perfect Way (O Caminho Perfeito), p. 252]


Fraternidade Universal Princípio Pouco Conhecido, Essência do Budismo e do Cristianismo

“Quão pouco esse princípio da Fraternidade Universal é compreendido (…), e quão raramente sua importância transcendente é reconhecida (…). A Sociedade Teosófica foi organizada com base nesse único princípio, a Fraternidade Essencial da Humanidade (…). Ela tem sido atacada como budista e anti-cristã, como se pudesse ser essas duas coisas ao mesmo tempo, quando precisamente ambos — o Budismo e o Cristianismo — conforme foram apresentados por seus inspirados fundadores, consideram a fraternidade como o ponto essencial da doutrina e da vida.” (Helena Blavatsky, citando J.D. Buck. A Chave para a Teosofia, p. 39)


Segredo do Fracasso Espiritual dessa Época: Ausência de uma Lei ou Princípio Moral Universal

A filantropia que vocês pensadores ocidentais se orgulham, não possuindo um caráter de universalidade; isto é, nunca tendo sido estabelecida sobre o alicerce firme de um princípio moral universal; nunca tendo se elevado além de discursos teóricos; (…) é apenas uma mera manifestação acidental mas não uma Lei reconhecida. (…) Esse, eu penso, é o segredo, do fracasso espiritual e egoísmo inconsciente dessa época.” [K.H. The Mahatma Letters to A.P. Sinnett (Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett), n. 28, p. 215]


Fraternidade Universal É uma Lei na Natureza

“A fraternidade constitui, em sua plena acepção, uma Lei na Natureza. Não se pode deixar de enfatizar suficientemente esse ponto. Constitui o objeto do nosso trabalho que a fraternidade passe a ser algo prático na sociedade, e nunca se tornará prático até que as pessoas compreendam que é uma Lei, não apenas uma aspiração. Quando descobrimos uma Lei na Natureza, não mais lutamos contra ela. Prontamente nos acomodamos no novo conhecimento e nos adaptamos às condições então compreendidas. Contudo, a fraternidade é tão pouco conhecida em nosso mundo.” (Annie Besant. A Vida Espiritual, p. 113)


Fraternidade Universal É Única Fundação Segura para Moralidade Universal

“O termo “Fraternidade Universal” não é nenhuma frase ociosa. (…) Ela é a única fundação segura para a moralidade universal. Se for um sonho, pelo menos é um sonho nobre para a humanidade: e é a aspiração do verdadeiro adepto.” [K.H. The Mahatma Letters to A.P. Sinnett (Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett), n. 4, p. 17]


Verdades Esotéricas São da Maior Importância Espiritual e Prática, Devendo Ser Destrutivas dos Erros do Passado e Construtivas de Novas Instituições de Genuína Fraternidade da Humanidade

“As verdades e mistérios do ocultismo constituem, de fato, um corpo da mais alta importância espiritual, ao mesmo tempo profundo e prático para o mundo como um todo. Contudo, não é como uma mera adição à confusa massa de teorias e especulação no mundo da ciência que eles lhes foram dados, mas sim por causa de suas implicações práticas sobre os interesses da humanidade. (…) Eles devem se provar tanto destrutivos quanto construtivos — destrutivos nos perniciosos erros do passado, nos velhos credos e superstições que sufocam toda a humanidade em seu venenoso abraço como a erva daninha mexicana; mas construtivos de novas instituições de uma genuína e prática Fraternidade da Humanidade, onde todos se tornarão co-laboradores da natureza (…).” [K.H. The Mahatma Letters to A.P. Sinnett (Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett), n. 6, p. 23]


Grande Missão do Verdadeiro Altruísmo: a Elaboração de Claras Ideias Éticas e Deveres, e a Moldagem de suas Instituições

“O problema e grande missão do verdadeiro Altruísmo  (N.A.: da verdadeira Sabedorias Divina ou Teosofia) é a elaboração de claras e inequívocas concepções de ideias éticas e de deveres, as quais possam mais e melhor satisfazer os sentimentos retos e altruísticos em nós; e a moldagem dessas concepções para a sua adaptação em tais formas de vida diária onde elas possam ser aplicadas com mais equidade. Tal é o trabalho comum em vista para todos os que desejem agir de acordo com esses princípios. É uma tarefa laboriosa e requererá esforço árduo e perseverante, mas ela deverá conduzi-lo inconscientemente ao progresso, e não deixará nenhum espaço para aspirações egoístas fora dos limites traçados. (…)

O grau de sucesso ou fracasso nessa tarefa são as balizas que o Mestre deve seguir, pois elas se constituem nas barreiras colocadas com suas próprias mãos entre vocês mesmos e aqueles que pediram para ser seus instrutores. Quanto mais próximo da meta contemplada — menor a distância entre o estudante e o Mestre.” [Adepto. Letters from the Masters of the Wisdom (Cartas dos Mestres de Sabedoria), 2nd Series, n. 82, p. 158]


Os Princípios Fundamentais do Humanitarismo

“Como uma doutrina ou como uma filosofia sociopolítica o Humanitarismo está fundamentado em apenas cinco grandes e simples princípios, cuja importância para o bem estar da humanidade é difícil de exagerar, conforme os capítulos anteriores procuraram demonstrar. Estes cinco princípios são:

1 – Todos os seres humanos constituem uma FRATERNIDADE.

2 – Todos os seres humanos possuem uma mesma origem e uma mesma natureza essencial e, portanto, IGUAL VALOR.

3 – Não obstante a sua unidade e igualdade essenciais, os seres humanos apresentam CAPACIDADES DIFERENCIADAS.

4 – Em vista desses princípios, a norma que deve presidir a justiça e a harmonia possível entre os seres humanos é a da IGUALDADE DE OPORTUNIDADES para o desenvolvimento de suas capacidades individuais diferenciadas.

5 – O princípio ético da RESPONSABILIDADE DAS ELITES, do qual também depende o advento das novas instituições sociais.

A Fraternidade da Humanidade: o Objetivo Único

O princípio ou lei da Fraternidade Universal da Humanidade engloba, na verdade, os outros quatro princípios acima apresentados. Esses princípios adicionais são importantes porque especificam os aspectos fundamentais do grande princípio ou lei da Fraternidade Universal da Humanidade. Portanto, na realidade, o objetivo único do HUMANITARISMO como movimento social, é a difusão e a aplicação prática do princípio ou lei da Fraternidade de todos os seres humanos, contanto que esse seja entendido apropriadamente.” [Arnaldo Sisson Filho. O Que Há de Errado com a Política? (Fundamentos para uma Verdadeira Democracia).]


A DEMOCRACIA DO FUTURO – Capítulo do Livro O Que Há de Errado com a Política? (Fundamentos para uma Verdadeira Democracia)

     – Requisitos Para Modelo Alternativo Competente
             – Representação em Cascata: Democracia do Futuro
             – A Liberdade é Garantida
             – Um Processo com Igualdade de Oportunidades
             – A Harmonia entre Funções e Capacidades
             – A Geração do Poder Necessário
             – Necessita-se de Um Exemplo para as Nações

 

Requisitos Para Um Modelo Alternativo Competente

Nos capítulos anteriores deixamos claro o fracasso dos modelos atualmente dominantes e porque eles jamais poderão assegurar uma ordem social justa e competente, sobretudo no que diz respeito ao problema do enorme diferencial de riqueza existente entre os países ricos e os países pobres (onde vivem duas terças partes da população mundial). Ou seja, procuramos esclarecer que tais modelos (que hoje geralmente são vistos como exemplos bem sucedidos a serem copiados) jamais poderão resolver o desafio da superação do quadro de exclusão e miséria de tantos milhões que assistimos em nossos dias. Assim sendo, chegamos agora ao momento em que devemos apontar pelo menos algumas diretrizes gerais a respeito de como seria um modelo político alternativo, que tivesse pelo menos a chance de alterar substancialmente esse panorama.

Já vimos anteriormente que a premissa, isto é, a visão de ser humano e de humanidade que fundamenta esse novo modelo deve ser aquela que nos mostra a humanidade como uma fraternidade, o que implica no reconhecimento da unidade essencial dos seres humanos, bem como das suas grandes diferenças de capacidades.

Quais, então, seriam as características principais de um novo modelo de organização política, que atendesse as necessidades antes expostas para um processo justo e competente de seleção dos governantes, bem como a necessidade de dotar esses governantes do suficiente poder de coerção?

Como vimos anteriormente, os requisitos essenciais que devem existir simultaneamente para um competente processo de escolha dos dirigentes são: 1) liberdade; 2) igualdade de oportunidades (ou de condições) nas disputas políticas; e 3) uma boa adequação entre a responsabilidade (que sempre está atrelada ao grau de dificuldade das funções) e as características da consciência social da população (dos diferentes níveis de capacidade, ou de abrangência conceitual). Já no que diz respeito à geração do necessário poder de coerção pelo sistema (de modo que os governantes possam regular e harmonizar a atuação das grandes organizações), o requisito necessário é que o modelo político promova uma organização coesa de toda a população.

Em vista, sobretudo, das características dos diferentes níveis de consciência da população e da simultânea necessidade de que a liberdade de escolha seja preservada, bem como garantida uma igualdade de oportunidades na disputa política, a primeira conclusão é a da total inviabilidade de eleições diretas envolvendo grandes populações.

Trata-se de uma total inviabilidade porque essas eleições de grandes massas, embora preservando a liberdade, resultam sempre em uma preservação da liberdade do tipo “raposa dentro do galinheiro”. Ou seja, uma liberdade na qual não há igualdade de condições na disputa política, nem tampouco harmonia entre os níveis de abrangência conceitual e os níveis de responsabilidade na escolha. A consequente resultante disso é uma entrega total do processo (tão fundamental e decisivo) das escolhas dos cargos de maior responsabilidade nas mãos do poder econômico-financeiro (pluto), e nas mãos da demagogia. Na verdade, os atuais modelos ditos democráticos (caracterizados centralmente pelas eleições de grandes massas) não são verdadeiras democracias, porém pluto-demagogicracias. Um sistema verdadeiramente democrático significa o governo do povo, pelo povo e para o povo, enquanto que nas democracias liberais o governo é do povo, pelo povo, porém sempre para o poder econômico e para a demagogia.

Representação em Cascata: a Democracia do Futuro

À primeira vista aparentemente nos encontramos em um beco sem saída, isto é, como preservar a liberdade sem eleições diretas de grandes populações, juntamente com a igualdade de condições nas disputas político-eleitorais, e ainda mantendo a harmonia entre os níveis de consciência e a responsabilidade das escolhas nos diferentes níveis de representação política?

Na realidade, um pouco mais de reflexão nos mostra que há uma solução consistente para esse aparente paradoxo. Trata-se de um modelo que contemple eleições muito menos diretas, e que garanta que essas eleições nunca impliquem em processos de escolha envolvendo diretamente grandes massas, e ao mesmo tempo preservando a liberdade e uma rigorosa proporcionalidade entre as várias pequenas, médias e grandes circunscrições eleitorais.

Desse modo, este sistema teria como base pequenas circunscrições eleitorais, a exemplo de vilas, vizinhanças, pequenos bairros ou pequenas municipalidades, de preferência jamais ultrapassando uma dimensão bastante humana, na qual o conhecimento pessoal entre os indivíduos não fosse uma coisa impossível ou mesmo muito difícil de ocorrer.

A que número de pessoas estaríamos aproximadamente nos referindo? Esse número poderá variar significativamente em se tratando de áreas rurais ou urbanas, uma vez que nas áreas urbanas de grande concentração populacional as distâncias físicas entre um número expressivo de pessoas são relativamente pequenas. Nas malhas urbanas podem existir grandes edifícios etc., e nessas condições de comunicação interpessoal mais facilitada, o número de eleitores nessa primeira circunscrição político-eleitoral poderia ser significativamente maior do que em áreas rurais de grande dispersão populacional, onde as pessoas tenham dificuldades muito maiores de estabelecerem contatos face a face.

Essas diferenças de número de pessoas nesse primeiro nível eleitoral não têm maior importância, uma vez que sempre se manterá uma rigorosa proporcionalidade entre representantes e representados. Se, apenas por hipótese, o coeficiente for de 50 para 1 nesse primeiro nível, então, se numa circunscrição houver 1.000 eleitores, haveria vinte (20) representantes do primeiro nível. Se outra circunscrição básica contar com apenas 200 eleitores, ela elegerá apenas quatro (4) representantes do primeiro nível, e assim por diante. A rigorosa proporcionalidade sendo um óbvio requisito para a igualdade de oportunidades.

O modelo de representações sucessivas se estreitaria gradualmente como uma pirâmide, através dos níveis dos Distritos, das Microrregiões, dos Estados (ou Províncias), e daí para o Congresso Nacional, o qual escolheria um gabinete com um chefe executivo, tal como um primeiro-ministro em um sistema parlamentarista. Convém notar, no entanto, que esse sistema assemelha-se ao sistema parlamentarista tradicional apenas no topo da pirâmide, sendo todo o processo de escolha e seleção completamente diferente dos sufrágios diretos de grandes populações, uma vez que as diferentes circunscrições eleitorais se articulam em vários níveis até chegar ao nível do Congresso Nacional.

Se levarmos em conta as enormes vantagens desse sistema em relação aos atuais torna-se difícil de aceitar que um sistema assim não tenha sido experimentado seriamente em nenhum lugar, ao menos que tenhamos conhecimento. Examinemos um pouco mais essas vantagens, em comparação com os atuais sistemas dominantes: as democracias liberais e os totalitarismos marxistas.

A Liberdade é Garantida

Em relação aos totalitarismos marxistas a grande vantagem desse novo modelo de democracia participativa é que a liberdade é absolutamente preservada, enquanto que nas chamadas ditaduras do proletariado a liberdade é sacrificada. Nesse contexto só existe igualdade de oportunidades para os membros do partido, se tanto. Ou seja, não existe plena liberdade e, portanto, não existe igualdade de oportunidades nos totalitarismos marxistas, enquanto que na democracia do futuro esse requisito essencial é preservado.

Quanto aos outros aspectos a democracia participativa não perde em nada para o totalitarismo marxista. Os sistemas marxistas têm na adequação entre funções e capacidades e na organização coesa de grande parte da população os seus pontos fortes. Ora, esses pontos são igualmente fortes na democracia participativa do futuro, uma vez que ela é parecida nesses particulares aspectos aos modelos marxistas, sendo, na realidade, superior aos totalitarismos marxistas, pois esses excluem do processo de escolha muitas pessoas inteligentes e capazes, apenas porque elas não pertencem ao partido comunista ou assemelhados (como podemos ver, por exemplo, no modelo hoje vigente na China continental).

Um Processo com Igualdade de Oportunidades

Que dizer então da comparação da democracia do futuro com o sistema hoje hegemônico no mundo, que é a chamada democracia liberal? A liberdade que é o ponto forte das democracias liberais também é plenamente preservada nessa democracia participativa do futuro.

Sob alguns aspectos, de fato, há até mesmo mais liberdade nessa do que nas democracias liberais. Primeiro, porque nos sistemas democrático-liberais por vezes o voto é obrigatório, enquanto nessa democracia participativa do futuro o voto é livre. Segundo, porque nos sistemas liberais geralmente os candidatos devem estar filiados a algum partido, enquanto que na democracia do futuro os candidatos podem ou não estarem filiados a algum partido, dependendo de suas livres escolhas. Nos sistemas liberais para ser candidato quase sempre o indivíduo depende da escolha dos partidos, mas nessa democracia do futuro isso depende apenas de sua própria decisão. Vemos, assim, que mesmo sob esse aspecto que é o forte das democracias liberais, esse novo modelo de democracia não lhe fica devendo nada, e até mesmo apresenta algumas vantagens.

Quanto a todos os outros aspectos essa democracia participativa do futuro é muito superior aos sistemas liberais. Ela garante uma imensa igualdade de oportunidades nos processos eleitorais, enquanto que nas pseudodemocracias liberais apenas os privilegiados materialmente, os comunicadores e aqueles que têm profissões ligadas à comunicação de massa, além dos demagogos em geral, é que têm chance de serem eleitos para os cargos de maior responsabilidade.

A Harmonia entre Funções e Capacidades

Quanto à adequação entre funções e capacidades quase não há necessidade de comentários, tamanhas são as vantagens do modelo sugerido em relação aos sufrágios de massa dos sistemas liberais.

Nessa democracia participativa do futuro há uma gradual qualificação dos eleitores, que são os que foram eleitos no nível imediatamente inferior. A cada nível de representação ocorre de forma natural uma qualificação (quanto ao aumento de abrangência conceitual, ou nível de consciência social), pois se tratam dos que foram livremente escolhidos como representantes mais capacitados para defender os interesses de sua respectiva área ou circunscrição eleitoral.

É quase ridícula a comparação, mas qual seria o percentual dos que elegeriam os representantes para o Congresso Nacional nesse novo modelo que não saberiam sequer dizer o que é uma Assembleia Constituinte? Certamente esse percentual seria praticamente zero, ou seja, nenhum dos representantes desse elevado nível desconheceria uma questão tão elementar! Comparemos isto com os 70,5 % que, como vimos anteriormente, no Rio Grande do Sul não sabiam responder a essa questão tão elementar, mas que constituíram o próprio eleitorado que escolheu os constituintes em 1986! Haveria necessidade de outras comparações? Haveria alguma dúvida de que nessa democracia participativa do futuro teríamos um Congresso Nacional extraordinariamente mais qualificado?

A Geração do Poder Necessário

Finalmente, também quanto à capacidade de gerar o suficiente poder nas mãos dos dirigentes livremente escolhidos o modelo aqui defendido é muito superior aos sistemas liberais. O modelo proposto organiza a população de forma muito mais coesa, não de forma frouxa e atomizada como nas pseudodemocracias liberais.

É quase impossível reprimir-se violentamente um sistema como esse. Se, por hipótese, uma força militar impedisse o funcionamento do Congresso Nacional, ainda assim toda população continuaria politicamente organizada, em uma cascata de pequenas assembleias, na maioria dos casos tão pequenas que poderiam se reunir em uma ampla sala de estar. Como reprimir uma organização assim? Trata-se de uma missão quase impossível.

Tudo isso sem mencionar o fato evidente de que talvez a maior força política nessa democracia participativa do futuro seja a grande, ou pelo menos muito maior, qualificação dos seus dirigentes mais elevados (em comparação com aqueles eleitos nas pseudodemocracias liberais), o que lhes garantiria, apenas por esse aspecto, um apoio popular muito maior do que aquele devotado aos atuais governantes.

Quão diferente seria a qualificação desses governantes dos exemplos recentes da política brasileira, onde vemos casos e mais casos de corrupção, de incompetência, de demagogia, de despreparo generalizado para o exercício dos cargos mais elevados, do péssimo exemplo para a população que tem um conceito baixíssimo quanto ao caráter dos políticos (como vimos em dados anteriormente apresentados).

Necessita-se de Um Exemplo para as Nações

O país que em primeiro lugar conseguir adotar o modelo de organização política dessa democracia participativa do futuro estará, desse modo, servindo aos mais elevados interesses do seu próprio povo, e estará também dando um exemplo que certamente ajudará e inspirará outros países. Especialmente aqueles países hoje mais pobres, geralmente submetidos a uma dependência neocolonialista e com um passado de séculos de exploração colonial. Isso porque nesse sistema existirá, de fato, uma real chance para que a necessária sabedoria (qualificação intelectual e técnica, junto com caráter altruísta) chegue até os cargos de maior poder e responsabilidade.

Na verdade, essa mudança organizacional somente alcançará seu caráter verdadeiramente democrático (do povo, pelo povo e para o povo), desde que seja precedida por uma genuína mudança ideacional ao nível das elites, isto é, daquela parcela da população possuidora das mentes de maior abrangência conceitual. Esse aspecto não é muito fácil de ser compreendido e, por essa razão, será abordado no próximo capítulo.

Em vista das análises anteriores, parece desnecessário compararmos ainda mais esse modelo com os atualmente dominantes no mundo inteiro. Sob todos os aspectos analisados, trata-se de um modelo muito mais eficiente e justo do que os atuais, tanto em termos de competência do processo de escolha dos dirigentes, quanto em termos de gerar um poder muito maior nas mãos dos dirigentes, de modo que eles possam regular a atuação das gigantescas organizações. Isso porque, como vimos, esse novo modelo, além de viabilizar dirigentes muito mais qualificados para o exercícios de suas imensas responsabilidades, organiza de forma muito mais coesa toda a população de qualquer sociedade.

Tanto a diferença na qualificação dos governantes, quanto na coesão organizacional de toda a população, devem mudar substancialmente a situação de conflitos e de permanentes injustiças de todo tipo que hoje temos. E isso é algo cuja importância é difícil de exagerar, sobretudo para as nações pobres, que hoje não têm esperança alguma, dentro dos atuais modelos, quer liberal quer marxista, de superarem o círculo vicioso da miséria e do dito subdesenvolvimento. [Arnaldo Sisson Filho. O Que Há de Errado com a Política? (Fundamentos para uma Verdadeira Democracia).]


Acima de Todas as Coisas Ensinem a Doutrina dos Graus ou Níveis Espirituais, Que Não Guardam Relação Com a Condição Externa da Vida

“Vejam que acima de todas as coisas vocês ensinem a doutrina dos graus ou níveis espirituais (castas). Os cristãos cometeram um sério erro ao requerer a mesma regra de todas as pessoas. As castas são como degraus por meio dos quais se ascende do mais baixo para o mais alto. Elas são, propriamente, graus ou níveis espirituais, e não guardam qualquer relação com a condição externa da vida. Como todas as demais doutrinas, aquela das castas foi materializada. As castas são quatro em número, e correspondem à quádrupla natureza do homem.” [Anna Kingsford. Clothed With the Sun. Being the Book of the Illuminations of Anna Kingsford (Vestida Com o Sol. Sendo o Livro das Iluminações de Anna Kingsford), p. 50]


Movimento Vegetariano: Redentor do Mundo

“Considero o movimento vegetariano o mais importante movimento de nossa época. Acredito nisso porque vejo nele o começo da verdadeira civilização. Minha opinião é que até o presente momento não sabemos o que significa civilização. Quando olhamos para os cadáveres dos animais, sejam inteiros ou cortados – que com molhos e condimentos são servidos em nossas mesas – não pensamos no horrível fato que precedeu esses pratos; e, não obstante, é algo terrível saber que a cada refeição que fazemos foi a custo de uma vida. Sustento que devemos à civilização a elevação de toda aquela classe profundamente desmoralizada e barbarizada de pessoas – açougueiros, boiadeiros e todos os outros envolvidos nesse negócio deplorável. Milhares de pessoas são degradadas pela presença de abatedouros em suas vizinhanças, o que condena classes inteiras a uma ocupação aviltante e desumana. Aguardo pelo tempo em que a consumação do movimento vegetariano tenha criado homens perfeitos, pois vejo nesse movimento o alicerce da perfeição. Quando percebo as possibilidades do vegetarianismo e as alturas a que ele pode nos elevar, me sinto convencida de que ele se provará o redentor do mundo”. [Anna Kingsford. Citada por Samuel H. Hart, em Em Memória de Anna Kingsford (In Memoriam Anna Kingsford). Esse livreto contém o texto completo, com adendos do autor, da palestra proferida por ele para a Sociedade Vegetariana de Leeds, em 15 de setembro de 1946, na comemoração do Centenário do nascimento de Anna Kingsford.]