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VI – A FILOSOFIA PERENE E A FRATERNIDADE UNIVERSAL:

A Unidade Essencial de Toda a Humanidade

 

            55 – “O homem que mergulha de forma bem sucedida em sua própria natureza e existência interna, de volta ao seu Centro e Âmago, encontra a única fonte de todos os homens, de todos os seres, de toda a existência. A Unidade então emerge como a verdade suprema, a verdade eterna.” (G. Hodson, Basic Theosophy, p. 81)

 

            No capítulo anterior pudemos examinar várias passagens a respeito da importância do princípio ou lei da fraternidade universal da humanidade. A maioria delas de autoria dos Sábios que assumimos hipoteticamente neste texto como sendo expoentes exemplares da verdadeira Teosofia (Sabedoria dos deuses, Libertação, Iluminação espiritual e Altruísmo) – os chamados Adeptos, Mahatmas ou Mestres.

 

            Pudemos ver claramente que, em resumo, “Eles eram muito enfáticos quanto ao que um Deles chamou de “Fraternidade Universal”. Essa era a Sua meta principal, desde o início”, em relação à ST, como disse N. Sri Ram em citação anterior.

 

            Assim sendo, percebe-se que deve existir uma relação direta e fundamental entre a genuína Teosofia ou Altruísmo e a lei da fraternidade universal da humanidade.

 

            Percebe-se que quando o olhar daqueles que subiram até o alto dos degraus da “Escada de Ouro” (que conduz ao “templo da Sabedoria Divina”) se volta compassivamente para os problemas do mundo, a visão que eles nos transmitem é, resumidamente, que não há como minorar os sofrimentos do mundo “senão por meio da influência suavizadora de uma fraternidade, e da aplicação prática das doutrinas esotéricas”, como vimos em citação do Senhor Maha-Chohan.

 

            O mesmo grande Adepto que expressou a visão acima afirmou que essas doutrinas esotéricas, se forem verdadeiras, devem oferecer soluções consistentes para os problemas do mundo. Desse modo, a lei da fraternidade universal da humanidade (e as suas aplicações práticas, naturalmente) deve estar relacionada simultaneamente com a Filosofia Perene (constituindo-se numa das suas leis mais importantes) e com as soluções consistentes dos problemas mundiais.

 

            Ou seja, este princípio ou lei da fraternidade da humanidade, dada a ênfase nele colocada pelos Mahatmas, deve ser um dos princípios ou leis mais importantes da Filosofia Esotérica, sendo perfeitamente coerente com as suas doutrinas fundamentais, tais como o princípio da Unidade subjacente à manifestação, a essência e o destino divinos do homem, as leis do Carma e da Reencarnação, entre outras. E, ao ser aplicada aos problemas mundiais, a lei da fraternidade universal deve ser muito útil no sentido de oferecer-lhes soluções verdadeiras.

 

            Contudo, conforme pudemos observar em algumas das citações anteriores, esta lei da fraternidade universal da humanidade, bem como a sua importância transcendental para as soluções dos grandes problemas da humanidade, não é uma matéria de fácil compreensão para a grande maioria das pessoas, nem mesmo para os membros da ST em geral.

 

            Por essa razão, a partir desse ponto faremos uma análise da lei da fraternidade universal da humanidade à luz das principais doutrinas da Filosofia Esotérica, visando esclarecer os seus aspectos fundamentais. Depois disso, então, procuraremos demonstrar sua importância decisiva para as soluções consistentes dos grandes problemas humanos, o que será feito comparando a lei da fraternidade universal com os princípios fundamentais das correntes de pensamento dominantes em nossa época. Procuraremos, desse modo, evidenciar os equívocos fundamentais destas correntes, bem como os equívocos dos seus fracassados modelos de organização sócio-política.

 

            Ao longo de todo esse desenvolvimento procuraremos mostrar que isto é válido para uma dada interpretação da lei da fraternidade universal. E que dentro dessa interpretação os três objetivos da ST apontam linhas de ação perfeitamente afinadas com as soluções consistentes dos problemas mundiais. Nesse caso, a lei da fraternidade humana e os três objetivos, analogamente ao que ocorre com a Teosofia, constituem-se na glória da ST. Do mesmo modo, tentaremos mostrar que o mesmo não ocorre com outras interpretações da lei da fraternidade universal e, em conseqüência, com outras interpretações dos três objetivos da ST, podendo estas resultar na paralisação do progresso da ST (como citamos de um dos Mahatmas), constituindo-se na miséria da ST.

 

            Tendo em mente esse panorama geral, iniciemos nosso exame do princípio da fraternidade humana à luz da Filosofia do Ocultismo. É quase óbvio que num texto dessa natureza não é possível apresentar, a não ser de forma muito resumida, os vários aspectos abordados por essa vasta e perene filosofia. No entanto, uma vez que este texto poderá ser lido por algumas pessoas com pouco conhecimento acerca da Filosofia Perene, faz-se necessário tentarmos um esboço de suas principais doutrinas e, então, à luz desse esboço, examinar os aspectos fundamentais do princípio ou da lei da fraternidade universal da humanidade.

 

 

            Princípios Básicos da Filosofia Perene

 

            Um primeiro esboço desse tipo, embora muito simples, já foi dado quando apresentamos as “três verdades” absolutas, mencionadas na obra O Idílio do Lótus Branco. Em síntese, elas nos dizem que:

 

            1) o ser humano é essencialmente um espírito imortal, envolvido em uma trajetória evolutiva cujo crescimento é ilimitado;

 

            2) o Princípio criador é absolutamente benigno, bem como realmente uno, dentro e fora do homem, e essa identidade pode ser percebida pelo homem que seriamente deseja esta percepção;

 

            3) todo o universo é regido por uma lei de perfeita justiça, a qual faz com que cada homem seja o seu absoluto dispensador de felicidade ou pesar, pois cada um colherá rigorosamente segundo a sua própria semeadura.

 

            Vejamos, agora, um esboço um pouco mais desenvolvido, que está em sua maior parte baseado em um resumo apresentado por I.K. Taimni em sua obra Autocultura à Luz do Ocultismo (p. 10-12). Segundo esse resumo, então, as principais doutrinas da Filosofia Perene são as seguintes:

 

            1) O universo tem suas raízes em um Princípio Eterno, Ilimitado, Imutável, chamado o Absoluto ou a Realidade Última. Esse Princípio transcende o alcance da compreensão intelectual humana.

 

            2) Os dois primeiros produtos da diferenciação deste Princípio Ilimitado são a Consciência e o Poder, ou o Espírito e a Matéria. Estes não são duas realidades independentes, mas dois aspectos polares do Absoluto, e estão na base de toda a Criação ou Manifestação.

 

            3) Dessa Tríade procedem todos os inúmeros universos que aparecem e desaparecem num ciclo sem fim de Manifestação e Dissolução.

 

            4) As inumeráveis galáxias e sistemas solares conhecidos, que constituem apenas uma parte do universo manifestado, formam unidades independentes e, contudo, têm suas raízes na Realidade Sempre-Imanifestada.

 

            5) Todo sistema solar é um mecanismo perfeitamente organizado que, além de governado por leis imutáveis da Natureza, é também a manifestação de uma Inteligência transcendente chamada Logos (ou Deidade Solar).

 

            6) O Sol físico e os planetas a ele ligados são a parte mais externa ou mais densa do nosso sistema solar, havendo diversos níveis (ou mundos) invisíveis, compostos de matéria progressivamente mais sutil, que interpenetram o nível, plano ou mundo físico.

 

            7) O sistema solar completo com seus planetas e níveis, visíveis e invisíveis, é um vasto teatro de evolução, onde a energia criadora, em seus vários estágios e inúmeras formas, está evoluindo para uma perfeição cada vez maior.

 

            8) Todo esse estupendo processo tem lugar de acordo com um Plano definido, presente na Consciência Divina, controlado e guiado por várias hierarquias de Seres, em diferentes estágios de evolução.

 

            9) A vida evolui passo a passo através dos reinos mineral, vegetal, animal e humano. A evolução continua mesmo após o término, ou após ter sido atingida a perfeição humana.

 

            10) Os seres humanos, Divinos em essência, contêm em si todas as qualidades e poderes que associamos à Divindade, porém ainda em estado germinal. O desenvolvimento gradual desses poderes e qualidades acarreta uma expansão de consciência sempre crescente, sem limites, mesmo após alcançado o estágio de reunificação consciente com a Divindade.

 

            11) O desenvolvimento destas qualidades e poderes latentes é efetuado através do processo de sucessivas reencarnações, o espírito encarnando muitas e muitas vezes em diferentes países e sob diferentes circunstâncias, para adquirir experiências de todas as espécies, passando em seguida por períodos de descanso nos níveis supra físicos, a fim de assimilar essas experiências.

 

            12) O acúmulo destas experiências é o fator principal na explicação do estágio de desenvolvimento evolutivo alcançado pelos seres humanos individuais. É esse mesmo fator que determina tanto as diferenças evolutivas que existem entre os reinos ou grandes estágios evolutivos (mineral, vegetal, animal, humano e supra humano), quanto as enormes diferenças de desenvolvimento presentes dentro de cada reino.

 

            13) A absoluta Unidade essencial e a infinita Diversidade de existências e formas manifestadas são os fatores determinantes para a compreensão do processo evolutivo em todos os seus estágios, inclusive no humano. Assim sendo, no reino humano são estes mesmos fatores que fundamentam o princípio ou lei da fraternidade universal da humanidade.

 

            14) Não somente o nível físico, mas também todos os outros níveis, da evolução em geral e da vida humana em particular, são governados por leis naturais operando em suas respectivas esferas, todas elas submetidas à oniabarcante lei de causa e efeito, geralmente conhecida como lei do Carma ou da Justiça Divina.

 

            A própria existência desta lei oniabarcante torna o homem senhor absoluto de seu destino e, ele próprio, o criador de sua felicidade ou de sua miséria.

 

 

            A Fraternidade Universal à Luz da Filosofia Perene

 

            Tendo em mente essa visão global, examinemos um pouco mais detidamente aqueles pontos que podem nos auxiliar em nosso objetivo de melhor esclarecer a lei da fraternidade universal da humanidade.

 

            Da perspectiva da Filosofia Esotérica apresentada acima, podemos constatar a existência de um grande ciclo evolutivo, radicado na Unidade divina e que, na etapa humana se processa através de sucessivas reencarnações. Essa visão é decisiva para uma boa compreensão da lei da fraternidade de todos os homens, porque é ela que a fundamenta e que define as suas características principais.

 

            De um lado ela revela o aspecto da Unidade subjacente a todos os seres e, de outro, ela nos indica e ilumina o aspecto da Diversidade manifestada (através dos diferentes estágios evolutivos).

 

            A própria palavra “frater-nidade” (“frater” significando irmão em latim) nos dá a chave de todo esse panorama, tanto acerca da sua estrutura básica, quanto em relação ao seu desenvolvimento no tempo. Assim, estruturalmente, todos somos irmãos, pois todos gozamos de uma paternidade comum, que é a Vida divina, muito embora tenhamos diferentes idades, ou estejamos em diferentes níveis de desenvolvimento evolutivo. Esses são os dois aspectos fundamentais da Unidade e da Diversidade.

 

 

            A Fraternidade Universal e o Bem-estar da Humanidade

 

            O importante, nesse ponto, é notarmos bem que essa é, resumidamente, a concepção que nos é oferecida pela Filosofia Perene. E que se ela for verdadeira, conforme nos afirmam de forma inequívoca aqueles que mais se elevaram na escala evolutiva (os Mahatmas e seus discípulos mais avançados), então, é dessa concepção que depende o estabelecimento de corretas noções éticas e de deveres que possam ser universalmente (isto é, a todos) aplicadas, o que significa uma moralidade universal. Do mesmo modo que é dela que depende o surgimento de instituições sócio-políticas justas e cientificamente sadias, as quais possam harmonizar a humanidade e aliviar os seus sofrimentos.

 

            Em vista da importância desse ponto, parece oportuno relembrarmos neste momento duas passagens das cartas dos Mestres, nas quais são afirmados muito claramente os fatos e as relações lógicas apresentadas nos parágrafos anteriores, isto é, que é desta visão da humanidade como uma fraternidade que a todos abrange (universal), e da sua aplicação prática, principalmente sob a forma de novas instituições sociais, que depende em grande medida o bem-estar de toda a família humana. E que é na sua ausência que encontraremos as raízes da maioria dos conflitos e dos sofrimentos humanos.

 

            Essa última questão, como dissemos, será retomada com maior detalhamento mais adiante, quando procuraremos mostrar este fato: -- de que as correntes de pensamento dominantes em nossa época, bem como as instituições sociais delas derivadas, estão fundamentadas em concepções que contradizem a visão da humanidade como uma fraternidade universal. Mas, relembremos as passagens das cartas dos Mahatmas a este respeito:

 

            56 – “O termo “Fraternidade Universal” não é nenhuma frase ociosa. (...) Ela é a única fundação segura para a moralidade universal. Se for um sonho, pelo menos é um sonho nobre para a humanidade: e é a aspiração do verdadeiro adepto.” (K.H., ML, n. 4, p. 17)

 

            57 – “As verdades e mistérios do ocultismo constituem, de fato, um corpo da mais alta importância espiritual, ao mesmo tempo profundo e prático para o mundo como um todo. Contudo, não é como uma mera adição à confusa massa de teorias e especulação no mundo da ciência que eles lhes foram dados, mas sim por causa de suas implicações práticas sobre os interesses da humanidade. (...) Eles devem se provar tanto destrutivos quanto construtivos – destrutivos nos perniciosos erros do passado, nos velhos credos e superstições que sufocam toda a humanidade em seu venenoso abraço como a erva daninha mexicana; mas construtivos de novas instituições de uma genuína e prática Fraternidade da Humanidade, onde todos se tornarão co-laboradores da natureza (...)” (K.H., ML, n. 6, p. 23)

 

            E uma vez que esse princípio ou lei é de importância transcendental para o bem estar individual e coletivo de todos os seres humanos, e que parece haver uma má compreensão generalizada a seu respeito, detalharemos um pouco mais a nossa análise do princípio ou lei da fraternidade universal da humanidade à luz da Filosofia Perene. Para tanto dividiremos a nossa abordagem de acordo com os aspectos fundamentais desse princípio. Esses aspectos, conforme já mencionamos, são a Unidade subjacente e a Diversidade de existências manifestadas.

 

 

            A Unidade Subjacente e a Lei da Fraternidade Universal

 

            O aspecto da Unidade subjacente à fraternidade humana é muito comentado na literatura da ST, bem como na literatura espiritualista em geral e, assim sendo, não será necessário nos alongarmos muito no seu exame. Vejamos apenas uma passagem de Geoffrey Hodson, conhecido autor e clarividente, onde ele trata desse primeiro e fundamental aspecto:

 

            58 – “(...) desejo colocar uma idéia supremamente importante a respeito do homem. Falo não somente do homem como Pensador, mas do homem em sua real Essência, o misterioso Morador das Profundezas de nosso Ser, o Logos da Alma, a Chispa da Chama Divina, a Scintilla (Centelha) do Sol Espiritual.

            “Essa idéia supremamente importante é que há em todo o Universo somente uma Essência Espiritual, um Ser Espiritual, uma Chama Divina – e o Ser Espiritual do homem é para sempre uno com aquele todo-abarcante “Uno sem Segundo”. Esta é a grande verdade, a verdadeira fonte de poder, o segredo supremo.

            “O homem que mergulha de forma bem sucedida em sua própria natureza e existência interna, de volta ao seu Centro e Âmago, encontra a única fonte de todos os homens, de todos os seres, de toda a existência. A Unidade então emerge como a verdade suprema, a verdade eterna. “Todos são tão somente partes de um estupendo Todo.” (...) por trás de toda a existência há um Poder Supremo, uma Energia, uma Força, uma Lei e, por causa dessa característica de unicidade, todos os componentes daquele Uno estão unidos no “Uno sem Segundo”.

            “Todos são um. Minerais, plantas, animais, homens, Super-homens, Anjos, Arcanjos, mundos, sóis, estrelas e galáxias de estrelas – todos são um, inseparavelmente unidos. No que diz respeito aos bilhões de seres humanos agora na Terra, todos são membros de uma mesma Raça espiritual, a qual não tem divisões de espécie alguma. Essa é a verdade sublime, o fato Mestre – todos são um.” (Basic Theosophy, p. 81)

 

 

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