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II – A FUNDAÇÃO DA ST E A INFLUÊNCIA DOS MAHATMAS

 

            4 – “Ordens recebidas da Índia orientam a estabelecer uma Sociedade filosófico-religiosa e escolher um nome para ela – também para escolher Olcott. Julho, 1875.” (HPB, CW, Vol. I, p. 94)

 

            A ST foi fundada no ano de 1875, na cidade de Nova Iorque. A história de como ela veio a ser fundada é muito interessante e repleta de episódios pitorescos. Um relato detalhado desses primeiros tempos da ST foi escrito por Henry Steel Olcott, um de seus fundadores e seu primeiro presidente, em sua obra Old Diary Leaves (Folhas de um Velho Diário).

 

            A grande organização que hoje é a ST foi iniciada por um pequeno grupo de pouco mais de uma dúzia de pessoas. Ela começou suas atividades como uma organização de caráter reservado e com o objetivo de investigar os fenômenos ocultos, como a mediunidade, as materializações e assim por diante. Muito embora Olcott tenha sido eleito desde a fundação da ST como seu presidente vitalício, e além dele outros fundadores tenham sido importantes nos primeiros tempos da ST, a exemplo de William Quan Judge, o fato é que a personagem principal em torno da qual gravitavam os demais – sobretudo naqueles primeiros anos – foi Helena Petrovna Blavatsky (doravante referida pelas iniciais HPB).

 

 

Helena Petrovna Blavatsky

 

            HPB nasceu na Rússia e era filha de uma família da nobreza. No momento da fundação da ST ela tinha 42 anos. Sua vida até aquele momento foi cheia de aventuras e digna do maior interesse. Casou-se ainda bem jovem e conservou por toda a vida o sobrenome deste casamento – Blavatsky. Esse casamento durou poucos meses, iniciando-se então uma série muito longa de viagens e de aventuras mencionadas por seu biógrafo Alfred Percy Sinnett (A Vida de Helena Blavatsky).

 

            O leitor interessado em uma visão mais profunda e imparcial da vida dessa verdadeira esfinge que é para nós HPB deve conhecer a obra A Esfinge Helena Blavatsky, de Marina Sisson. Trata-se de uma abordagem única, embora seja constrangedor elogiar muito essa obra, pois a autora é minha esposa. De qualquer modo, fica aqui a referência: SISSON, Marina Villares Lenz Cesar. A Esfinge Helena Blavatsky. Edição da autora, Brasília, 2003. 307 p. Essa obra também se encontra, na íntegra, online, no Site Anna Kingsford (www.anna-kingsford.com.br), em português e em espanhol.

 

            HPB era por certo muito corajosa e independente, embora ao mesmo tempo compassiva e humanitária. Além desses traços de caráter, possuía múltiplos talentos dentre os quais destacavam-se aqueles para a literatura, para o desenho e para a música. Porém, de todas as suas características talvez a que mais lhe trouxe notoriedade foi o fato de possuir poderes psíquicos ou paranormais, os quais ela já trazia desde a infância, embora não da forma controlada e desenvolvida que os exibia quando da fundação da ST.

 

            Dentre os vários aspectos interessantes relacionados com os poderes psíquicos ou paranormais de HPB destaca-se um como tendo relevância toda especial no que diz respeito à concepção original, à fundação e ao desenvolvimento subseqüente da ST. Este aspecto é a íntima comunicação (telepática e de outros modos) de HPB com Sábios iluminados, dos quais ela se dizia uma discípula ou aprendiz, e ante os quais ela se colocava na condição de mera servidora, imperfeita e inexperiente. Poucos anos depois vários outros membros influentes dos primeiros tempos da ST também estabeleceram algum tipo de comunicação com esses Sábios, a exemplo de Olcott, Judge, Sinnett e Damodar. A citação de Olcott dada abaixo serve para atestar esse fato:

 

            5 – “Um estranho encadeamento de circunstâncias aproximou-nos e uniu nossas vidas nesse trabalho sob a elevada direção de um grupo de Mestres, sobretudo de um, cuja sábia instrução, nobres exemplos, paciência benevolente e solicitude paternal nos ensinaram a sentir por Ele o respeito e o amor que um verdadeiro pai inspira a seus filhos. Devo a H.P. Blavatsky o ter-me dado a conhecer a existência desses Mestres e sua Filosofia Esotérica e, em seguida, ter sido minha intermediária antes que eu tivesse entrado em relações diretas e pessoais com Eles.” (citado em A Vida de Helena Blavatsky, A.P. Sinnett, p. 13)

 

            Olcott foi o primeiro presidente da ST desde a sua fundação em 1875 até 1907, quando faleceu. Lendo sua citação acima, não é difícil constatarmos que – embora a existência desses Sábios não seja uma crença obrigatória na ST – é quase impossível compreender-se satisfatoriamente as origens, os princípios norteadores e os objetivos da ST sem tratar-se da questão da influência sobre a ST desses Sábios iluminados, os quais são geralmente referidos como Mestres, Adeptos, Mahatmas, Irmãos Mais Velhos, ou ainda coletivamente como Fraternidade Oculta, Grande Fraternidade Branca ou Hierarquia Oculta.

 

            Mais adiante examinaremos as relações existentes entre esses Adeptos e a Teosofia (e portanto com o nome da ST), bem como com o princípio ou a lei da fraternidade universal da humanidade, que se constitui na idéia mestra da ST. Contudo, antes de passarmos a essas considerações, examinemos outras citações onde transparecem inequivocamente tanto os poderes de HPB, quanto a presença e a influência dos Adeptos.

 

 

A Influência dos Mahatmas

 

            Encontramos no Volume I de seu álbum de recortes e anotações (Scrapbook) uma anotação escrita na caligrafia de HPB com o título de “Nota Importante”. Suas palavras mostram algo da natureza dos seus poderes, bem como da sua relação com os Adeptos. Isto porque “M.” é a forma como ela se referia a um dos Adeptos, o qual era o seu instrutor espiritual, ou guru, sendo esse o Mestre referido por Olcott na citação anterior. Segue a nota na íntegra:

 

            6 – “NOTA IMPORTANTE

            “Sim. Eu sinto dizer que tive que me identificar com os espíritas durante aquele vergonhoso desmascaramento dos médiuns Holmes. Tive que salvar a situação, pois fui enviada de propósito de Paris para a América para provar os fenômenos e a sua realidade – e mostrar a falácia das teorias espíritas dos “Espíritos”. Mas como poderia eu fazer melhor? Não queria que as pessoas em geral soubessem que eu poderia produzir a mesma coisa à vontade. Recebi ORDENS em contrário e, mesmo assim, tive que manter viva a realidade, o caráter genuíno e a possibilidade de tais fenômenos nos corações daqueles que de materialistas se tornaram espíritas e agora, devido ao desmascaramento de diversos médiuns, retrocederam outra vez, voltando a seu ceticismo. É por isso que, escolhendo alguns poucos dentre os confiáveis, fui à casa dos Holmes e auxiliada por M. e seu poder, mostrei os rostos de John King e Katie King na luz astral, produzi o fenômeno da materialização – e permiti que a maior parte dos espíritas acreditasse que isso tinha sido feito por intermédio da mediunidade da Sra. Holmes. Ela própria estava terrivelmente assustada, pois sabia que dessa vez a aparição era real. Será que agi mal? O mundo ainda não está preparado para compreender a filosofia das Ciências Ocultas – deixemos que se assegurem em primeiro lugar de que existem seres em um mundo invisível, sejam eles “Espíritos” dos mortos ou Elementais; e de que há poderes ocultos no homem que são capazes de transformá-lo em um Deus na face da terra.

            “Quando eu estiver morta e tiver desaparecido as pessoas irão, talvez, reconhecer minha motivação desinteressada. Empenhei a minha palavra em dedicar-me enquanto eu for viva a auxiliar as pessoas em direção à Verdade – e cumprirei a minha palavra.  Deixemos que me ofendam e me insultem. Deixemos que alguns me chamem uma MÉDIUM e uma espírita, e outros uma impostora. Chegará o dia em que a posteridade aprenderá a me conhecer melhor.

            “Oh pobre, tolo, crédulo e perverso mundo!

            “M. ordena formar uma Sociedade – uma Sociedade secreta como a Loja Rosacruz. Ele promete auxiliar. HPB” (CW, Vol. I, p. 73)

 

            Seguem abaixo mais duas citações com o mesmo propósito de explicitar algo das relações de HPB com os Adeptos, ambas retiradas do primeiro volume dos Collected Writings de HPB. A primeira delas é uma nota com a caligrafia de HPB no seu álbum de recortes, após colar um recorte de jornal com uma notícia sobre a organização do “Clube de Milagres” de Olcott:

 

            7 – “Trata-se de uma tentativa em conseqüência das ordens recebidas de T...B... por meio de P... atuando como John King (seu personagem). Fui ordenada a começar a dizer a verdade ao público a respeito dos fenômenos e seus médiuns. E agora meu martírio irá começar! Terei todos os espíritas contra mim, além dos cristãos e dos céticos! Que seja feita a Tua Vontade, oh M.! HPB” (CW, Vol. I, p. 89)

 

            A segunda dessas citações refere-se diretamente à ST:

 

            8 – “Ordens recebidas da Índia orientam a estabelecer uma Sociedade filosófico-religiosa e escolher um nome para ela – também para escolher Olcott. Julho, 1875.” (CW, Vol. I, p. 94)

 

            Fica assim perfeitamente claro, segundo o testemunho dos dois principais fundadores e grandes líderes da ST em seus primeiros tempos, que a influência dos Adeptos na constituição e na orientação original da ST foi de importância central e decisiva. Contudo, a fim de deixar esse aspecto bem esclarecido, convém repetir que a crença na existência destes Sábios iluminados não é obrigatória na ST, sendo os seus membros livres para acreditar ou não na existência dos Mahatmas. No entanto, em vista de uma evidência histórica tão marcante como o testemunho dos fundadores, é natural que a grande maioria dos membros (embora não todos) considere a existência dos Mahatmas pelo menos como uma hipótese bastante provável. Isto é, que ao menos concedam a esta hipótese o benefício da dúvida.

 

 

 

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