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XVII – A REALIZAÇÃO DA VERDADE INTERNA (DECISIVA, PORÉM

         RESTRITA): O Terceiro Objetivo da Sociedade Teosófica

 

            193 – “Com a compreensão do externo o movimento interno tem início, não em oposição ou em contradição. (...) Somente então o movimento interno tem validade e real significado.” (J. Krishnamurti, Krishnamurti’s Notebook, p. 15)

 

            Neste último capítulo consideraremos o terceiro objetivo da ST, o qual está assim formulado:

 

            “Investigar as leis inexplicadas da natureza e os poderes latentes no homem.”

 

            Tentamos mostrar nos capítulos anteriores que o primeiro objetivo visa criar um exemplo prático para o mundo de organização cujo “plano geral e a administração externa” (K.H., ML, n. 28, p. 213) seja coerente ou esteja estruturado sobre a lei da fraternidade universal da humanidade, o que inclui um modelo político organizacional coerente com essa lei; e que o segundo objetivo visa, sobretudo, investigar e difundir (ou ensinar) através do método comparativo essa lei da fraternidade universal, após termos conquistado o direito moral de ensiná-la, graças à realização do primeiro objetivo.

 

            Esse segundo objetivo, como vimos, também visa difundir outras leis e princípios básicos da Filosofia Perene, os quais também estão relacionados com a lei da fraternidade de toda a humanidade e, portanto, com “claras e inequívocas concepções de idéias éticas e de deveres” (LMW, 1st Series, n. 82, p. 158) e, assim, com as “soluções consistentes” (Maha-Chohan, LMW, 1st Series, n. 1, p. 9) para os problemas mundiais. Em síntese, então, o segundo objetivo visa “o melhoramento da condição do HOMEM, por meio da difusão da verdade de forma ADAPTADA (N.A: grifo é nosso) aos seus vários estágios de desenvolvimento e àquele do país que ele habita e pertence.” (K.H., ML, n. 85, p. 399)

 

            Vemos, desse modo, que o primeiro e o segundo objetivos, ao mostrarem soluções concretas e teóricas para os problemas do mundo, estão diretamente ligados ao trabalho pelo advento de uma sociedade justa. Ou seja, estão ligados a um fundamental auxílio à humanidade na tarefa de construção de uma sociedade justa ou ainda, com outras palavras, estão relacionados com a construção “de novas instituições de uma genuína e prática Fraternidade da Humanidade”. (K.H., ML, n. 6, p. 24)

 

 

            Terceiro Objetivo: Uma Verdadeira Regeneração da Psique

 

            Do mesmo modo, tentaremos mostrar agora que o terceiro objetivo da ST visa auxiliar às pessoas interessadas na realização da suprema meta da vida humana que é a realização da Verdade interna, a qual, conforme examinamos nos capítulos iniciais, significa o desenvolvimento de uma mente verdadeiramente Sábia, de uma mente que chegou até à Teosofia, que elevou-se até o “Templo da Sabedoria Divina” (da Verdade e do Amor). Procuraremos igualmente mostrar que esses três objetivos não são compartimentos isolados ou estanques, mas que eles interagem entre si de forma harmônica e complementar.

 

            Há uma citação de N. Sri Ram que resume essa questão da fraternidade e da busca da Verdade como relacionadas com os objetivos da ST:

 

            194 – “Quando estudamos os Objetivos da Sociedade Teosófica, encontramos neles duas idéias mestras, uma das quais é a da fraternidade, e a outra, que embora expressa como estudo e investigação, pode ser descrita como uma busca pela Verdade.” (On the Watch Tower, p. 487)

 

            Mais precisamente, procuraremos mostrar neste capítulo que esse terceiro objetivo e os dois primeiros interagem mutuamente de forma muito estreita e interdependente, criando um verdadeiro “círculo virtuoso”, no qual a realização de um auxilia enormemente a realização dos outros, e vice versa. Na verdade, nas palavras de um dos Adeptos, “a formação do primeiro sendo condição sine qua non para a realização do último (K.H., ML, n. 28, p. 213). Procuraremos mostrar, finalmente, que esse sim é o objetivo da ST que visa uma verdadeira regeneração da psiquê do indivíduo, tarefa essa que, no entanto, ao contrário do que pensam e apregoam muitos líderes da ST, não é aquela que deve caracterizar o grosso das atividades e programas da ST. Isso porque, conforme também procuraremos demonstrar, em termos de sua realização prática ele está relacionado, devido às dificuldades inerentes à sua realização, apenas com uma minoria dos membros da ST (muito embora o terceiro objetivo apresente uma tarefa vital e decisiva para o sucesso de todo o trabalho da ST).

 

            Trata-se, desse modo, para usar as palavras de HPB, de um objetivo decisivo, porém restrito. Não que essa restrição signifique impedimentos a priori à liberdade de qualquer membro de dedicar-se a esse objetivo – muito pelo contrário, todos os membros são estimulados nessa direção. Esse caráter restrito, como bem explicou HPB, diz respeito tão somente ao fato de que a realização desse objetivo implica, na prática, em gigantescas dificuldades para a maioria das pessoas. Assim sendo, em vista dessas grandes dificuldades, a maioria dos membros não se sentirá realmente atraída ou capacitada pelos seus aspectos práticos. Passemos, então, ao exame desse objetivo.

 

 

            A Realização da Verdade Interna: Um Objetivo Decisivo

 

            Em primeiro lugar é importante termos em mente que essa busca da Verdade interna, mencionada por N. Sri Ram, é também uma atividade decisiva para o sucesso da ST. HPB, no final de A Chave para a Teosofia, no capítulo que tem o título de “O Futuro da Sociedade Teosófica”, afirmou que o futuro da ST depende sobretudo de que aqueles que sucedessem aos fundadores na liderança da ST tivessem abnegação, discernimento, bom senso e juízo claro, ou seja, de que os líderes tivessem uma mente Sábia, ou um genuíno contato com a “verdade viva”. Ela segue com a seguinte afirmação, que reforça ainda mais a importância dessa realização:

 

            195 – “Todos os intentos parecidos ao da Sociedade Teosófica fracassaram até agora, porque cedo ou tarde degeneraram em seitas, formulando dogmas fechados e perdendo dessa maneira, por graus imperceptíveis, aquela vitalidade que apenas a verdade viva pode dar.” (p. 259)

 

            Vemos, portanto, que a vitalidade que apenas a verdade viva pode dar é realmente decisiva, pois é a única chance de que o atual intento de criar uma organização como a ST não resulte também em fracasso, como TODOS os outros anteriores.

 

            Essa busca pela verdade viva, que implica na busca da realização da Unidade essencial de todos os seres e do Altruísmo (pois como vimos antes, a Verdade e o Altruísmo são apenas aspectos diferentes de um mesmo estado de realização espiritual), significa uma completa regeneração da psiquê egocêntrica que caracteriza a condição mental da grande maioria dos seres humanos. E é principalmente para auxiliar nessa regeneração que o terceiro objetivo foi proposto. Sem ela, pelo menos entre os seus principais líderes, a ST também deve resultar em fracasso, pois estaria às tontas, sem o direcionamento correto para suas grandes linhas de ação, o que somente a verdade viva pode garantir.

 

            É claro que, em termos ideais, a ST também deveria auxiliar na tarefa de prover o mundo com agentes lúcidos para promoverem as grandes reformas de que o mundo tanto carece. Isso porque esse contato com a verdade viva é muito raro no mundo, tão raro quanto importante. Sem esse tipo de qualidade de mente, quem poderia assumir de forma segura as imensas responsabilidades inerentes ao exercício dos cargos que detêm maior poder?

 

            É no contexto desse terceiro objetivo que a ST deveria organizar grupos para o estudo sério das doutrinas mais profundas da Filosofia Esotérica, isto é, aquele estudo ou investigação que visa à realização prática de suas verdades em nossa consciência. uma citação de N. Sri Ram, que engloba outra de HPB, que esclarece muito bem o significado e o lugar desse decisivo objetivo dentro do trabalho da ST:

 

            196 – “Ninguém estava melhor qualificada, quer por seus próprios poderes extraordinários, quer pela luz que nos ofereceu por meio de seus trabalhos em relação às questões cobertas pelo terceiro objetivo, ou por sua participação na fundação e no desenvolvimento inicial da Sociedade, para escrever acerca do lugar que os três objetivos deveriam ter em nosso trabalho do que a própria HPB; e isto foi o que ela disse no artigo intitulado “Quatorze Anos de Teosofia” (que deve ter sido escrito em 1889):

            “Temos um terceiro objetivo, perseguido por uma parte dos membros da Sociedade, que é investigar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes psíquicos do homem. São dois objetivos gerais e um objetivo restrito, a saber (...)

            “Apenas uma parte de nossos membros se ocupam com o estudo das propriedades ocultas da matéria e dos poderes psíquicos do homem. A Sociedade como um todo, então, não está envolvida neste campo de pesquisa. E naturalmente, pois de cada dez mil pessoas que possamos encontrar, as chances são de que apenas uma pequena minoria tenha o tempo, a inclinação ou a habilidade para realizar estudos tão delicados e desconcertantes... Pensamos que seja uma boa coisa proclamar esta linha de pesquisa e AUTODESCOBERTA (N.A: maiúsculas são nossas) como o terceiro de nossos objetivos. Para aqueles que estejam interessados nele e todos os buscadores que eles possam tocar e encorajar, foram escritos os livros místicos e filosóficos do presente e dos tempos passados”.” (On the Watch Tower, p.

535)

 

 

            A Realização da Verdade Interna: Um Objetivo Restrito

 

            Desde os primeiros tempos da ST não foram poucos os que perderam de vista o fato de que este objetivo tem um caráter restrito. E que ele deve ser perseguido de forma cuidadosa e discreta, e que interessará, de fato, apenas a uma pequena minoria, e não dirá respeito, em termos práticos, à maioria dos programas e ações da ST. Os próprios livros místicos que HPB referiu-se acima, quase que invariavelmente começam com observações iniciais, que são partes inerentes a essas obras, onde afirmam que essas obras são “para os poucos”, “para os discípulos”, “para aqueles que batem”, e assim por diante, e nós não deveríamos de modo algum ignorar, ou não dar a devida atenção a essas observações iniciais dessas obras.

 

            Várias passagens das cartas dos Mahatmas foram citadas no capítulo anterior acerca da forma gradual, discreta, sempre com inferências científicas, etc., por meio da qual a difusão das doutrinas da Filosofia Esotérica deveria ser realizada, de modo que não parece necessário repetí-las aqui. Mesmo assim, talvez valha a pena repetir parcialmente uma citação apresentada no quinto capítulo, pois nela HPB trata diretamente desse terceiro objetivo:

 

            197 – “Nossa Sociedade, como foi explicado repetidamente até mesmo para o público externo, tem uma meta geral e várias outras, senão menores, pelo menos não tão proeminentes. O envolvimento sério em uma dessas últimas – a ciência oculta, por exemplo – longe de ser considerado como dever comum e trabalho de todos, está limitado pelas razões dadas acima a uma parcela muito pequena da Sociedade, esse envolvimento dependendo das inclinações e das aspirações pessoais dos membros.” (CW, Vol. IV, p. 470)

 

            Obviamente HPB se refere ao terceiro objetivo como uma meta “senão menor, pelo menos não tão proeminente”. O que está perfeitamente de acordo com a perspectiva de interpretação seguida por esse texto acerca do terceiro objetivo, como sendo decisivo (não menor), porém restrito (menos proeminente, discreto, para uma parcela minoritária dos membros, etc.).

 

            Há muitas passagens, como dissemos, a esse respeito. Mas há uma passagem  impressionante de uma carta de Damodar K. Mavalankar, o grande discípulo que auxiliou a ST na Índia em seus primeiros tempos, acerca da necessária discrição nos estudos dos temas esotéricos. Essa carta de Damodar mereceu uma nota fenomênica de um dos Adeptos, na qual Ele confirma a correção das colocações feitas por Damodar:

 

            198 – “Parece prevalecer uma impressão geral de que a Sociedade Teosófica é uma seita religiosa. Essa impressão deve sua origem, penso eu, a uma crença de que toda a Sociedade está dedicada ao Ocultismo. Até onde posso julgar, esse não é o caso. Se fosse, o melhor caminho a adotar seria tornar toda a Sociedade secreta, e fechar suas portas para todos, exceto àqueles muito poucos que tenham demonstrado uma determinação para dedicarem suas vidas inteiras ao estudo do Ocultismo. Se não for assim, e a Sociedade estiver baseada no amplo princípio Humanitário da fraternidade universal, deixemos o Ocultismo, que é um de seus inúmeros aspectos, ser um estudo completamente secreto. (...) Colocando certos fatos diante do público despreparado, apenas tornamos alvos de ridículo àqueles que foram caridosos conosco e nos aceitaram como seus colaboradores na promoção do bem-estar da humanidade. Por repisar excessivamente esse assunto, nos tornamos em certa medida odiosos aos olhos do público.” (Damodar K.M., ML, n. 142a, p. 486)

 

            Infelizmente, como antes dissemos, há uma forte tendência entre os líderes da ST, provavelmente devido ao seu genuíno interesse pelo trabalho do terceiro objetivo, de projetar para todos os membros da ST aquilo que, muito embora sendo uma tarefa decisiva, deveria estar restrita a uma pequena minoria. A tendência desses membros é de ver todo o trabalho da ST como sendo uma escola esotérica (o que é parte do terceiro objetivo). Para que essa projeção se torne aceitável, e todo o trabalho dos três objetivos se resuma na questão da regeneração espiritual, é preciso que esses membros interpretem a fraternidade universal não como uma lei, mas sim como uma regeneração da psiquê humana, ou como sinônimo de amor universal. Assim, a maioria tende a ver a fraternidade como uma aspiração e não como uma lei, com todos os problemas daí decorrentes, conforme examinamos em capítulo anterior (A Fraternidade como uma Lei ...).

 

 

            A Genuína Regeneração da Psiquê é para Poucos

 

            Ao julgarem que a gigantesca tarefa de uma genuína regeneração da psiquê humana, que é a essência do caminho do “verdadeiro Ocultismo ou Theosophia” (que é Altruísmo), significa a mesma coisa que a fraternidade universal do primeiro objetivo e, portanto, que seja aquilo que deva caracterizar e orientar todos os programas e atividades da ST, esses membros parecem cometer o mesmo tipo de engano que já foi apontado numa das cartas dos Mahatmas:

 

            199 – “Você estava um pouco demasiadamente empolgado com seu entusiasmo pelo ocultismo e o misturou muito imprudentemente com a Fraternidade Universal.” (K.H., ML, n. 72, p. 374)

 

            Ora, se apenas uma minoria de 10%, ou mesmo 5% dos membros, ou talvez uma percentagem ainda bem menor, apresentasse realmente as qualificações para essa tarefa, a ST certamente teria um enorme impacto sobre o mundo em geral, e não seria a organização pálida e pouco dinâmica que vemos na atualidade. Alguns membros sérios da ST reconhecem este fato, a exemplo de Jeanine Miller, antes citada:

 

            200 – “Se essa regeneração tivesse ocorrido entre os membros numa escala mais ampla, a história da Sociedade Teosófica teria sido bastante diferente, as pequenas lutas internas jamais a teriam prejudicado e o público não poderia nos acusar, de uma forma bastante justa, de sermos um corpo “morto”.” (Teosofia para o Futuro, em O Teosofista, 04-06/93, p. 22-23)

 

            Não obstante esses fatos patentes, há aqueles que acham que a ST vai muito bem, que não sofre de problema sério algum e que criticá-la – ainda que de forma leal, séria, construtiva e bem fundamentada – é estar sob a influência de forças sinistras e destrutivas! Se isso não é o caso de uma mente fechada, preconceituosa, ou mesmo de estreiteza quase fanática, que outros adjetivos merecerá?

 

 

            Hipótese para a Falta de Sucesso no Terceiro Objetivo

 

            Devemos nos perguntar seriamente se a paralisia no progresso da ST e a pouca capacidade dela propiciar uma genuína regeneração psico-espiritual, mesmo em uma pequena minoria (pois acreditar que muito mais do que isso seja factível demonstra, como vimos, uma grande ingenuidade ou ilusão), não poderia estar relacionada, como afirmaram os Mahatmas em passagens já citadas, a um não cumprimento por nossa parte de condições sine qua non como o primeiro objetivo (K.H., ML, n. 28, p. 213), bem como a uma “má compreensão generalizada das metas e objetivos da Sociedade” e – “nada mais” (M., ML, n. 38, p. 251). Essa, de fato, é uma hipótese muito lógica e provável, a menos que estejamos completamente enganados quanto ao fato da ST estar hoje enfrentando problemas sérios em seu desenvolvimento. Caso estejamos enganados a esse respeito, e a ST esteja se desenvolvendo muito bem, sem maiores problemas, então nossa linha de raciocínio está completamente equivocada e essa hipótese também carece de qualquer sentido. Mas, se estivermos ao menos parcialmente corretos em nosso diagnóstico, então essas hipóteses, que nos primeiros anos da ST foram afirmadas pelos Adeptos como fatos, ainda hoje merecem grande atenção de nossa parte.

 

            Por que essas parecem hipóteses muito prováveis e lógicas? Porque quem não demonstra competência no menor, no mais fácil, no mais comum, no mais superficial, evidentemente não demonstrará competência no maior, no mais difícil, no que é mais profundo e que exige capacidades mais desenvolvidas.

 

            Os nossos sentidos e a nossa mente estão usualmente atraídos para o mundo externo, suas coisas e suas relações de todos os tipos (profissionais, econômicas, políticas, familiares, etc.), as quais em relação às realidades psico-espirituais são obviamente menores, mais fáceis de serem medidas, mais comuns aos nossos sentidos exteriorizados, mais superficiais, e assim por diante.

 

            Então, será concebível ou lógico que se não pudermos observar com precisão os fatos a esse nível, se estivermos confusos e iludidos nesse nível, que possamos ter clareza, segurança e competência para observar com precisão as verdades e as ilusões muito mais sutis e profundas e, portanto, bem mais difíceis dos mundos psíquicos? Será concebível ou lógico que uma criança que ainda não desenvolveu coordenação motora para cortar com precisão um papel usando uma tesoura, que ela vá cortar com precisão um tumor usando um bisturi? Se ela ainda não consegue brincar com um carrinho, que ela vá dirigir com segurança um automóvel de verdade? É óbvio que não.

 

            Por essa razão tão lógica não parece provável que se não conseguimos sequer observar com precisão a realidade do mundo físico, certamente muito pouca chance teremos de obtermos sucesso na busca da Verdade interna.

 

 

            Um Núcleo da Fraternidade: uma Condição Sine Qua Non

 

            Já várias vezes relembramos a passagem em que o Adepto fala que o estabelecimento de um núcleo da fraternidade universal é condição sine qua non para que pudessem ocorrer instruções esotéricas genuínas (K.H., ML, n. 28, p. 213). Também é bastante conhecida a passagem que nos diz que a possibilidade de sucesso na aproximação “viva” dos Mestres depende de termos realizado a contento a tarefa beneficente da qual o mundo tanto carece. Porém, tamanha é a confusão a esse respeito que talvez não seja demais citá-la outra vez:

 

            201 – “O problema da verdadeira Teosofia e sua grande missão é a elaboração de claras e inequívocas concepções de idéias éticas e de deveres, as quais possam mais e melhor satisfazer os sentimentos retos e altruísticos em nós; e a moldagem dessas concepções para a sua adaptação em tais formas de vida diária onde elas possam ser aplicadas com mais equidade. Tal é o trabalho comum em vista para todos os que desejem agir de acordo com esses princípios. É uma tarefa laboriosa e requererá esforço árduo e perseverante, mas ela deverá conduzi-lo inconscientemente ao progresso, e não deixará nenhum espaço para aspirações egoístas fora dos limites traçados. (...)

            “O grau de sucesso ou fracasso nessa tarefa são as balizas que o Mestre deve seguir, pois elas se constituem nas barreiras colocadas com suas próprias mãos entre vocês mesmos e aqueles que pediram para ser seus instrutores. Quanto mais próximo da meta contemplada – menor a distância entre o estudante e o Mestre.” (LMW, 2nd Series, n. 82, p. 158)

 

            Essa passagem mostra de forma clara que a hipótese que estamos sugerindo é muito provável. Se a ST tem inspirado um número excessivamente pequeno até a “verdade viva” da cooperação consciente com os Mahatmas (que está centralmente relacionada com o terceiro objetivo da ST), talvez seja porque nós não estamos cumprindo sequer razoavelmente com a nossa missão quanto ao primeiro e ao segundo objetivos da ST (que são condições sine qua non para o terceiro). Talvez devamos antes aprender a observar as necessidades do mundo externo, para então estarmos capacitados para aprender a observar as necessidades do mundo interno.

 

            Sem isso, muito provavelmente, a vida interna se constitua mais em uma fuga, ou em um fator de desequilíbrio e confusão, do que em algo de verdadeiro e de beneficente significado.

 

 

            Com Compreensão do Externo Inicia o Movimento Interno

 

            Como lemos na carta do Sr. Maha-Chohan, se não nos preocuparmos com a sorte dos milhões e milhões de miseráveis desamparados e, mais do que isso, não nos mostrarmos competentes em oferecer (começando pelo exemplo em nossa organização) as “soluções consistentes” que o mundo tanto necessita para os seus problemas, então, se nem mesmo nessa tarefa tivermos sucesso, a qual como vimos é relativamente mais fácil, com toda probabilidade, muito pouco sucesso alcançaremos na tarefa mais difícil da Auto-realização, de alcançarmos a “verdade viva” do genuíno Ocultismo ou Theosophia, de galgarmos ao Templo da Sabedoria Divina, de sermos instruídos nesse Caminho diretamente pelos Mestres.

 

            Tudo indica que também seja esse o significado de passagens como as que seguem:

 

            202 – “Somente crescem em espiritualidade aqueles a quem a infelicidade dos outros entristece, aqueles para quem uma boa refeição é amarga enquanto há seres que têm fome, aqueles para quem o luxo é um fardo enquanto existem homens que nada possuem. Esses é que edificarão a nova civilização porque estão prontos a sacrificar a felicidade que gozam para espalharem, em volta de si, a alegria de viver e a segurança.” (A. Besant, O Mundo de Amanhã, p. 268)

 

            203 – “A situação é esta: os homens que entram para a Sociedade Teosófica com o único objetivo egoísta de alcançar poder, fazendo da ciência oculta sua única ou mesmo sua principal meta, bem poderiam nela não entrar – eles estão fadados ao desapontamento, tanto quanto aqueles que cometem o erro de deixá-los acreditar que a Sociedade não é nada mais do que isso. É justamente porque eles pregam demais sobre “os Irmãos” (N.A: os Mahatmas) e muito pouco, se algo, sobre a Fraternidade que eles falham. (...) Tão somente aquele que tem o amor da humanidade no coração, e que é capaz de compreender plenamente a idéia de uma fraternidade prática regeneradora é que está intitulado para a posse dos nossos segredos.” (M., ML, n. 38, p. 251)

 

            204 – “Em uma terra antiga como a Índia, onde existe hoje tantas religiões, não há necessidade alguma de adicionar qualquer ensinamento que possa ser chamado de novo. (...)

            “Contudo, se examinarmos todos esses ensinamentos, notaremos que eles se concentram principalmente na vida do indivíduo e não particularmente em suas relações com aqueles entre os quais ele vive. (...) A respeito de tudo aquilo que é mau nas condições sociais da comunidade, nos é dito em síntese: “Deixe tudo isto para Deus.” Isso tem sido tanto o caso na Índia, por milhares de anos, com os seus vários milhões de sannyasis, que nenhuma atenção foi prestada às condições de pobreza, ignorância, degradação e exploração que estão em todos os lados ao seu redor, por esses que se supõe estejam aspirando à mais elevada espiritualidade. É bem verdade que toda religião prega a caridade, isto é, as doações aos miseráveis. Mas quase nunca se levanta qualquer questão acerca do porquê numa nação chamada de uma comunidade civilizada deva existir um miserável sequer.

            “No século passado (1875) a ST foi iniciada com o ensinamento fundamental da Fraternidade Universal. Em outras palavras, até que algo do ideal da Fraternidade fosse realmente aplicado na vida social não poderia existir nenhuma comunidade realmente espiritual, ou mesmo civilizada. Mas o que queremos dizer por Fraternidade? (...) o que é, afinal de contas, que significa a Fraternidade quando trazida para o nível prático da vida diária? (...)

            “Nos últimos anos a Índia é livre para administrar seus próprios assuntos. Mas quais são as condições nas quais vivemos? Não preciso descrevê-las, pois todos vocês as conhecem bem. (...) Seria desnecessário aludir à corrupção na administração por todo o país (...) Vocês dirão: o que é que vocês jovens podem fazer hoje?

            “Certamente não muito nesse momento. Mas são essas condições que vocês devem estudar e tentar entender suas causas (...) Sua aspiração por realização espiritual hoje deveria estar voltada para a compreensão de qual é a verdadeira base da economia e de quais são os princípios eternos da justiça.

            “Quando essas verdades estiverem inseridas na estrutura do povo é que poderemos ter uma verdadeira vida religiosa, mesmo que nem um único templo, igreja ou mesquita exista nessa terra. (...)

            “O entendimento desses problemas que afetam a vida das massas, é que deveria ser o principal estudo de cada grupo de jovens da ST, e não propriamente entender o que os mais velhos chamam de “Plano de Deus”. O poder de dirigir as questões relacionadas com o povo lentamente passará dos mais velhos para vocês. Se vocês cometerem os mesmos erros que os mais velhos cometeram, terão desperdiçado sua juventude. (...) “Por acaso sou eu o guardião de meu irmão?”, perguntou Caim. A primeira aplicação da Fraternidade é: Nunca poderei ser meu próprio guardião, a menos que eu seja antes o guardião de meu irmão.” (C. Jinarajadasa, palestra inaugural da Loja de Jovens “Radiant”, Madras, 3/set/1950)

 

            Essas passagens deixam claro que, muito embora o terceiro objetivo seja decisivo para o verdadeiro sucesso do grande trabalho ou missão da ST, os dois primeiros objetivos também se constituem em uma necessária preparação para o sucesso na senda de Autodescoberta implícita no terceiro objetivo, ao ponto de um dos Adeptos se referir a eles (especialmente ao primeiro) como uma condição sine qua non para o sucesso no terceiro. Vemos portanto que, quando compreendidos e vivenciados apropriadamente, os três objetivos da ST se constituem em um genuíno caminho de realização espiritual, em uma verdadeira senda mística, religiosa ou ióguica.

 

            J. Krishnamurti tem uma passagem em que parece sugerir verdades análogas a essas das citações acima. E com suas poéticas e inspiradoras palavras concluiremos esse texto, almejando que ele tenha podido trazer alguma luz sobre o que seja a Teosofia e o caminho até o seu Templo Glorioso, bem como sobre a ST e o imenso e nobre trabalho dos seus três objetivos. Segue a citação:

 

            205 – “Há apenas um movimento na vida, o externo e o interno; esse movimento é indivisível, embora esteja dividido. Estando dividido, a maioria segue o movimento externo do conhecimento, das idéias, crenças, autoridade, segurança, prosperidade, e assim por diante. Em reação a esse, segue-se a assim chamada vida interior, com suas visões, esperanças, segredos, conflitos, desesperos.

            Como esse movimento é uma reação, ele está em conflito com o externo. E portanto existe contradição, com suas dores, ansiedades e fugas.

            “Há apenas um movimento, que é o externo e o interno. Com a compreensão do externo, o movimento interno tem início, não em oposição ou em contradição. E como o conflito foi eliminado, o cérebro, embora altamente sensitivo e alerta, torna-se quieto. Somente então o movimento interno tem validade e real significado.

            “A partir desse movimento surge uma generosidade e uma compaixão que não são o produto do raciocínio e da autonegação intencional.” (Krishnamurti’s Notebook, p. 15)

 

 

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