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X – A FRATERNIDADE UNIVERSAL E OS PROBLEMAS MUNDIAIS:

         A Fraternidade como uma Lei e as Idéias Dominantes

 

            119 – “A fraternidade constitui, em sua plena acepção, uma Lei na Natureza. Não se pode deixar de enfatizar suficientemente esse ponto. Constitui o objeto do nosso trabalho que a fraternidade passe a ser algo prático na sociedade, e nunca se tornará prático até que as pessoas compreendam que é uma Lei, não apenas uma aspiração. Quando descobrimos uma Lei na Natureza, não mais lutamos contra ela. Prontamente nos acomodamos no novo conhecimento e nos adaptamos às condições então compreendidas. Contudo, a fraternidade é tão pouco conhecida em nosso mundo.” (A. Besant, A Vida Espiritual, p. 113)

 

 

            A Fraternidade Universal é uma Lei, Não uma Aspiração

 

            Em vista dos fatos recém examinados, antes de iniciarmos o exame dos fundamentos das correntes dominantes em nossa época, há um aspecto da maior importância a respeito da perspectiva da humanidade como constituindo uma fraternidade universal, conforme ela tem sido aqui apresentada, que merece ser mais enfatizado.

 

            Esse aspecto importante é que ao longo desse texto a fraternidade universal da humanidade tem sido exposta, invariavelmente, como um FATO da natureza, ou como uma LEI, se assim o preferirmos, a qual revela as verdadeiras relações existentes entre os seres humanos. Desse modo, temos procurado mostrar, primeiro, suas duas características fundamentais: a Unidade subjacente, e a Diversidade manifestada. E, em segundo lugar, que à luz da Filosofia Esotérica a fraternidade universal da humanidade é algo que existe factualmente na natureza física e suprafísica. E isso de modo totalmente independente dos homens se aperceberem ou não desse fato, o que também é verdadeiro para qualquer outra lei da natureza.

 

            Tomemos um exemplo. Que os corpos se atraem uns aos outros de forma proporcional às suas massas (quanto maior a massa, maior será a atração) e inversamente proporcional ao quadrado das distâncias que os separam (quanto maior a distância, menor a atração) é um fato da natureza, o qual foi estudado e descrito detalhadamente, inclusive em termos matemáticos. Entretanto, os aspectos mais profundos desse fato ainda permanecem um grande mistério, como de resto acontece com todas as coisas nessa vida. Esse fato é chamado de força gravitacional e sua descrição geralmente é referida como a lei da gravitação ou da gravidade.

 

            É essa força, quando exercida pela Terra, que faz os objetos caírem, do mesmo modo que é essa força que mantém os corpos celestes em suas órbitas, quando equilibrada pela força centrífuga gerada pela velocidade dos seus movimentos.

 

            Contudo, essa força não deixa de existir se for ignorada, como se torna óbvio no caso de uma criança se jogar de um lugar alto, porque na sua inocência ignorou ou não esteve suficientemente atenta para esse fato ou lei.

 

            O que procuraremos mostrar nesse capítulo é que, de forma análoga a esse exemplo, conflitos e sofrimentos imensos para a humanidade têm como sua origem a ignorância ou o desrespeito à lei ou ao fato de que a humanidade constitui uma fraternidade universal. A Dra. Annie Besant comenta esse aspecto, justamente em relação à fraternidade humana, na passagem que a seguir citamos:

 

            120 – “Ralph Waldo Emerson ensinou a mesma lição. Em um de seus maravilhosos ensaios, ensinou a grande verdade de que a Natureza apenas se afigura cruel quando a ela nos opomos: ela é seu auxiliar mais forte quando você a ela se une; pois toda Lei que o aniquila quando você a ela se opõe, eleva-o quando você a ela se une. Toda a força que está contra você, enquanto você não acompanha a Lei, estará do seu lado quando você tornar-se uno com ela. (...) A Natureza é conquistada pela obediência; o Divino é encontrado em uma unidade de justiça e de amor.

            “Assim, a fraternidade constitui, em sua plena acepção, uma Lei na Natureza. Não se pode deixar de enfatizar suficientemente esse ponto. Constitui o objeto do nosso trabalho que a fraternidade passe a ser algo prático na sociedade, e nunca se tornará prático até que as pessoas compreendam que é uma Lei, não apenas uma aspiração. Quando descobrimos uma Lei na Natureza, não mais lutamos contra ela. Prontamente nos acomodamos no novo conhecimento e nos adaptamos às condições então compreendidas. Contudo, a fraternidade é tão pouco conhecida em nosso mundo.” (A Vida Espiritual, p. 113)

 

            Ao escrever essas linhas, Dra. Annie Besant dava ênfase a um ensinamento que antes já havia sido transmitido nas cartas dos Adeptos, conforme podemos ler na citação que segue:

 

            121 – “Você de tal modo ama a espécie humana que, você diz, caso sua geração não se beneficiasse disso, você rejeitaria o próprio “Conhecimento”. E contudo, esse sentimento filantrópico não parece sequer inspirá-lo com caridade em relação àqueles que você vê como de uma inteligência inferior. Por que? Simplesmente porque a filantropia da qual vocês pensadores Ocidentais se vangloriam, não tendo nenhum caráter de universalidade; isto é, nunca tendo sido estabelecida no solo firme de um princípio moral universal; nunca tendo se elevado acima de conversa teórica; e isso especialmente entre os onipresentes pregadores Protestantes, é apenas uma mera manifestação acidental, mas não uma Lei reconhecida. (...) Esse, penso eu, é o segredo do fracasso espiritual e do egoísmo inconsciente dessa época. E você, de outro modo um homem bom e sábio, sendo de modo inconsciente para si mesmo o tipo do seu espírito, é incapaz de compreender nossas idéias sobre a Sociedade como uma Fraternidade Universal, e assim – dá suas costas para ela.” (K.H., ML, n. 28, p. 215)

 

            Uma vez que esse é o segredo do fracasso espiritual dessa época, esse aspecto da fraternidade universal como uma lei é tão importante que, como disse a Dra.  Annie Besant, por mais que tentemos, dificilmente será enfatizado suficientemente. No caso da ST a necessidade de ênfase nesse aspecto também existe, e nela essa questão parece ter uma relevância ainda mais decisiva, porque a ST tem como idéia mestra e objetivo principal exatamente a lei da fraternidade universal.

 

 

            A Fraternidade é Mal Compreendida Também na ST

 

            Não obstante esse fato, os membros da ST de um modo geral também encontram uma grande dificuldade em compreender tanto a fraternidade como uma lei, quanto, em conseqüência, em compreender o que significa e qual a importância da ST oferecer ao mundo um modelo de organização que exemplifique, na prática, uma aplicação da lei da fraternidade universal. Isso ficou claro na citação acima, acerca de um dos membros mais influentes daquela época, quando o Adepto afirmou que ele era

incapaz de compreender nossas idéias sobre a Sociedade como uma Fraternidade Universal”. Esta má compreensão generalizada, contudo, ainda existe até os nossos dias, constituindo-se num dos pontos centrais do que chamamos, em resumo, de “o fracasso” da Sociedade Teosófica.

 

            Nesse sentido, é importante salientar o fato de que hoje a grande maioria dos membros da ST, mesmo entre os seus líderes, concebe a fraternidade universal como sinônimo de amor ou, pelo menos, de tolerância, ou seja, como sinônimo de altruísmo ou ao menos de relações tolerantes e cordiais. Assim, a grande maioria dos membros vê a fraternidade universal não como uma lei, mas sim como uma virtude que os indivíduos devem desenvolver e mesmo, não raro, como sinônimo de uma profunda regeneração da psiquê humana, ou seja, como sinônimo de verdadeiro Altruísmo, do verdadeiro Ocultismo ou Teosofia (que, como escreveu HPB, são iguais).

 

            Podemos citar como exemplo categórico desse equívoco generalizado o Congresso Mundial da ST, realizado em Brasília em julho de 1993, onde o entendimento geral dos palestrantes foi exatamente esse. Uma das principais lideranças da ST, que preferimos não nominar, pois tratamos aqui de defender uma tese e não de criticar pessoas individualmente, chegou a afirmar que os Mestres teriam usado a expressão “fraternidade universal da humanidade” em lugar de amor universal, apenas porque a palavra amor estava muito desgastada. Caso a tese aqui defendida estiver ao menos parcialmente correta, então, esse é um exemplo claro e marcante do que estamos resumindo como “o fracasso da ST”. Para as pessoas que concebem a fraternidade universal como sinônimo de genuíno Altruísmo, isto é, como um estado de regeneração profunda da psiquê individual, como o estado de uma mente Sábia, ou de amor impessoal, um núcleo da fraternidade universal somente seria formado, segundo estas pessoas, quando um número bem expressivo dos membros tivesse alcançado este estado.

 

            Essas pessoas, é claro que de forma não deliberada, parecem estar sob a influência do falso igualitarismo que é um dos "dogmas", isto é, um dos traços mais marcantes das correntes de pensamento dominantes em nossa época (conforme examinaremos logo adiante). Elas confundem, desse modo, a Teosofia (essa sim, como vimos, essencialmente sinônimo de uma mente Sábia, sinônimo de genuína Sabedoria e Altruísmo) com o princípio, a lei, ou o fato de que a humanidade é, sempre foi e sempre será uma fraternidade universal, independentemente dos indivíduos que compõem a humanidade compreenderem ou não essa lei, de forma exatamente análoga ao que ocorre no caso de qualquer outra lei, como no exemplo que examinamos da lei da gravidade.

 

            Esses são exemplos de maneiras sutis de inconscientemente mal interpretar a fraternidade universal, e de não compreendê-la como uma lei. Eles fazem com que ela se transforme em uma aspiração a ser alcançada, ao invés de ser concebida como uma lei da natureza, a qual deve ser aplicada e exemplificada na prática, sob a forma de “claras e inequívocas concepções de idéias éticas e de deveres”, bem como de novas instituições sociais, especialmente de um novo modelo de estrutura organizacional.

 

 

            A Falta de um Plano Geral Coerente com a Fraternidade

 

            Para aqueles que honesta e sinceramente defendem essas noções que supomos equivocadas, e que, em conseqüência, põem em dúvida essa relação da lei da fraternidade universal com a necessidade da criação de uma estrutura organizacional que a exemplifique e, dessa maneira, dão as costas para a grande importância atribuída pelos Mahatmas à tarefa de oferecer ao mundo, na prática, um modelo desse tipo, poderá ser útil refletir cuidadosamente sobre as passagens que seguem:

 

122 – “(...) pois a minha menção a esse assunto relacionava-se apenas ao plano geral e à administração externa da projetada Sociedade, e de forma alguma aos seus estudos esotéricos; relacionava-se ao Ramo da Fraternidade Universal e não à “Escola de Magia” – a formação do primeiro sendo condição sine qua non para a última. (...) Eu pedi por um esquema geral, e você imaginou que eu clamava por cooperação nas instruções a serem dadas nas ciências espirituais! (...) E você, de outro modo um homem bom e sábio, sendo inconscientemente um exemplo do seu espírito (N.A: do espírito dessa época) é incapaz de compreender nossas idéias a respeito da Sociedade como uma Fraternidade Universal, e assim – dá as costas para ela.” (K.H., ML, n. 28, p. 213-215)

 

            123 – “Os Chefes querem uma “Fraternidade da Humanidade”, o início de uma real Fraternidade Universal; uma instituição que se faça conhecida por todo o mundo e cative a atenção das mentes mais elevadas.” (K.H., ML, n. 6, p. 24)

 

            Vimos que o Adepto deixou claro que esperava auxílio daquele membro influente da ST daqueles dias (A.O. Hume, que era um administrador experiente, e ocupava um posto importante na administração inglesa da Índia de então), no sentido de que ele relacionasse a fraternidade universal com um “plano geral e à administração externa da projetada Sociedade”. Apesar dos esforços do Adepto, vemos que A.O. Hume não compreendia, como de fato não chegou a compreender, esse ponto da maior importância.

 

            Contudo, o mais importante seria percebermos que formas de má compreensão análogas a essa continuam a paralisar o progresso da ST até os nossos dias, na medida em que estão presentes mesmo entre os líderes da ST de um modo geral.

 

            Mais adiante retomaremos essa questão, porque ela ficará mais clara após a conclusão da análise de como as soluções dos problemas mundiais dependem de uma grande reforma intelectual que ofereça ao mundo claras noções éticas e de deveres, bem como um novo modelo de instituições ou de organização social, que sejam fundamentados na lei da fraternidade universal.

 

            Também em vista disso, posteriormente apresentaremos algumas observações básicas acerca de como seriam essas novas instituições ou esse novo modelo de organização sócio-política derivado e coerente com a perspectiva da humanidade como uma fraternidade universal, do qual a ST deveria ser, na prática, um exemplo para o mundo, ainda que em pequena escala pois, conforme já citamos antes, os princípios da Filosofia Perene, dentre os quais a concepção da humanidade como uma fraternidade universal, devem:

 

124 – “(...) se provar tanto destrutivos quanto construtivos – destrutivos nos perniciosos erros do passado, nos velhos credos e superstições que sufocam toda a humanidade em seu venenoso abraço como a erva daninha mexicana; mas construtivos de novas instituições de uma genuína e prática Fraternidade da Humanidade, onde todos se tornarão co-laboradores da natureza” (K.H., ML, n. 6, p. 23)

 

            Com isso em mente, passemos agora ao exame de quais são as correntes de pensamento dominantes na atualidade, e de como conflitam de um modo ou de outro com a lei que nos revela a perspectiva da humanidade como sendo uma fraternidade universal. Como dissemos, esse exame objetiva mostrar como os grandes problemas mundiais estão diretamente relacionados com os princípios centrais dessas correntes de pensamento, os quais negam a perspectiva da humanidade como uma fraternidade universal, e com o conseqüente fracasso dos modelos de organização social derivados desses princípios.

 

            Em primeiro lugar precisamos esclarecer a questão a respeito de quais são realmente as correntes de pensamento dominantes no mundo de hoje. Isto é, quais as correntes das quais se derivam os sistemas de idéias éticas e de deveres, bem como os modelos ou as principais instituições que organizam, de fato, a vida política, social e econômica das sociedades nesta segunda metade do século XX.

 

            Nesse sentido, não basta examinarmos quais as idéias que contam com o maior número de cabeças pois, como vimos, o que realmente importa são as correntes que se situam como dominantes ao nível da elite e que, portanto, afetam o comportamento dessa pequena minoria. Esse comportamento, por sua vez, acaba sempre se projetando sobre o todo social sob a forma de suas principais instituições organizativas.

 

 

            As Correntes de Pensamento Religioso Perderam Terreno

 

            Assim sendo, o primeiro ponto que devemos perceber claramente é que as correntes de pensamento religioso perderam enormemente terreno, desde o século XIX, e sobretudo no século XX, para filosofias seculares muito influenciadas pelo conhecimento e pelas teorias dominantes no campo das ciências contemporâneas.

 

            A Presidente Internacional da ST, Radha Burnier, recentemente sintetizou esse movimento com as seguintes palavras:

 

            125 – “A fé nos princípios e mandamentos religiosos foi erodida mais de um século atrás pelo advento da educação moderna baseada na lógica e na razão e pelo avanço do conhecimento científico.” (The Theosophist, jun/1993)

 

            Isso fica muito claro ao observarmos a ética que prepondera no comportamento da elite e, sobretudo, ao observarmos os modelos de organização sócio-política que moldam os destinos da grande maioria das nações e, muito especialmente, daquelas mais ricas, poderosas e influentes.

 

            No que diz respeito aos valores e ao comportamento dominante, novamente podemos citar Radha Burnier:

 

            126 – “A homocentricidade do Cristianismo bíblico foi substituída pelo orgulho de uma espécie que acreditou ter se elevado ao pináculo em um gigantesco processo de mudança conhecido pelo nome de evolução. A vontade de Deus, os mandamentos religiosos, e as leis morais – todos esses enfraqueceram até a insignificância perante a imagem do homem a respeito de si mesmo como um pensador e um criador.

            “Como um resultado dessas forças, crescentemente o indivíduo passou a ver a si mesmo como uma entidade absolutamente independente, com o direito incondicional de promover o seu próprio progresso e de satisfazer os seus desejos a despeito de como isso afete outras pessoas e formas de vida. (...) A nova “moralidade” está baseada na descrença em um propósito consciente ou inteligente por detrás do processo evolutivo. Se tudo é uma questão de acaso, a pessoa deve jogar o jogo espertamente e tratar de que as oportunidades lhes sejam mais favoráveis.” (The Theosophist, jun/1993)

 

 

            Os Deuses da Época: a Força, a Ganância e o Acaso

 

            No que diz respeito aos valores éticos, portanto, o utilitarismo – isto é, a crença nas “virtudes” da busca egoística do bem-estar individual, com a suposição de que ela resultará na maior felicidade para o maior número de pessoas (bastando para isso que essas buscas individuais sejam externamente equilibradas por uma fórmula racional de controle geral) – passou a ser completamente dominante. Não é de surpreender que nesse contexto o sucesso e a força tenham passado a ser usualmente tidos como sinônimos do que é bom e do que é certo.

 

            Há uma passagem de John M. Keynes, o famoso economista inglês, que ilustra muito bem esse ponto, na medida que se trata de uma justificativa a respeito da propriedade dos valores utilitaristas. Tendo sido escrita por Keynes, cujas obras influenciaram gerações de economistas, essa passagem nos permite avaliar a respeitabilidade e proeminência adquirida por essa postura em nossa época:

 

            127 – “Pelo menos por mais cem anos temos de simular para nós e para os demais que o justo é injusto e o injusto é justo; pois o injusto é útil e o justo não o é. Avareza, usura e precaução ainda têm que ser nossos deuses por um pouco mais.” (J.M. Keynes, citado por E.F. Schumacher, O Negócio é Ser Pequeno, p. 85)

 

            Numa da cartas dos Adeptos podemos ler uma clara referência a este critério de valor, que hoje é dominante:

 

128 – “(...) como qualquer um pode perceber, sua vida social bem como privada não está baseada sobre uma solidariedade moral geral, mas somente numa constante contraposição mútua e num equilíbrio puramente mecânico de poderes e interesses individuais. Se você quiser ser um Teósofo, não deve fazer como aqueles ao seu redor que clamam por um Deus de Verdade e Amor e servem aos Poderes sinistros da Força, da Ganância e do Acaso.” (LMW, 2nd Series, n. 82, p. 156)

 

            O Adepto apresenta na citação acima uma síntese a respeito de quais são os “deuses” realmente reverenciados e temidos pela maioria das mentes intelectualizadas (da elite) de nossa época: a Força, a Ganância e o Acaso. Essa é uma síntese tão ampla e ao mesmo tempo tão precisa, conforme deverá ficar claro ao longo das análises que seguem, que provavelmente apenas a mente poderosa de um Adepto fosse capaz de concebê-la, ainda no final do século XIX.

 

            Seja lá como for, esse critério generalizado de valor já é uma indicação segura acerca de quais são as idéias dominantes em nossa época. Mas a resposta a essa questão, acerca de quais são realmente as correntes de pensamento dominantes, fica ainda mais nítida ao observarmos as principais instituições políticas, sociais e econômicas que organizam a vida da maioria das nações. Isso porque, como vimos anteriormente, em última análise, as idéias dominantes ao nível da elite sempre se projetam como as principais instituições sociais do país. E, desse modo, ao analisarmos essas instituições sempre poderemos, percorrendo o caminho inverso, vislumbrar claramente quais as correntes realmente dominantes num dado momento histórico.

 

 

            As Correntes Hoje Dominantes: Liberalismo e Marxismo

 

            Sendo assim, ao examinarmos ainda que rapidamente os modelos de organização político-social aplicados pela maioria das nações na segunda metade do século XX não é muito difícil percebermos que eles caem dentro de duas grandes categorias. Observamos, de um lado, os modelos de organização política e econômica derivados do pensamento liberal, ou neoliberal se quisermos, uma vez que o Liberalismo de nossos dias não é igual àquele que em suas origens combateu o Absolutismo, dois ou três séculos atrás. De outro lado, temos os modelos de organização política e econômica baseados no pensamento marxista, ou neomarxista (inclusive o leninista etc).

 

            É bem verdade que com as recentes transformações na antiga URSS e no leste europeu, os modelos derivados do neomarxismo encontram-se em baixa, enquanto que os modelos neoliberais passaram a assumir uma supremacia avassaladora. Mas, seja lá como for, não é demais considerarmos também esta corrente de pensamento em nosso exame, uma vez que ela ainda exerce grande influência sobre significativas parcelas da elite de muitos países, especialmente dentro das academias, além de ainda estar modelando as principais instituições de algumas nações, a exemplo da China. Esses fatos lhe garantem tranquilamente pelo menos o segundo lugar dentre as correntes de pensamento que hoje dominam o mundo.

 

            Em vista disto, passemos a examinar essas duas correntes de pensamento que são as duas principais molduras interpretativas (ou mapas) por meio das quais a elite de nossos dias elabora as suas concepções a respeito da humanidade coletivamente considerada. Como dissemos antes, tratam-se de duas correntes filosóficas seculares e que se pretendem amparadas no conhecimento científico atual.

 

            Cabe observarmos que o fato de privilegiarmos essas duas correntes não significa afirmar que outras correntes, especialmente aquelas das tradições religiosas, não sejam ainda significativamente influentes. Afirmamos apenas, isto sim, que em nossos dias, no que diz respeito à maioria dos países, embora ainda detentoras de apreciável influência, as tradições religiosas certamente não são mais aquelas que apresentam maior centralidade dentro dos sistemas de crença da elite. O conceito de maior centralidade diz respeito àquelas idéias que possuem maior peso ou poder de influência sobre as atitudes e a conduta das pessoas. Em caso de confronto entre diferentes idéias ou atitudes, as que preponderam são aquelas de maior centralidade.

 

            Tudo que estamos afirmando aqui é que os pressupostos e as doutrinas fundamentais dessas duas filosofias seculares apresentam hoje um maior grau de centralidade nos sistemas de crença da elite do que quaisquer outras correntes, pela razão muito simples de que são esses os princípios que estão moldando o grosso do seu comportamento e, em consequência, são os que estão se projetando como as principais instituições organizativas da maioria das sociedades.

 

            Dentro dessas correntes precisamos examinar, sobretudo, as premissas que embasam as suas visões a respeito do homem e da humanidade. Isto porque, toda filosofia social deve necessariamente se desenvolver ao redor de um núcleo de premissas a respeito do que seja o homem e a humanidade.

 

            Como dissemos anteriormente, são essas as premissas que devemos comparar com a concepção de homem e de humanidade que nos é revelada pela Filosofia Perene, que mostra o homem como um ser de infinitas possibilidades e num processo de evolução em direção à glória de uma perfeição sublime, muito embora os seres humanos se situem em pontos diferentes dessa vasta trajetória evolutiva. Esta perspectiva da Filosofia Esotérica, como vimos, é sintetizada pela concepção da humanidade como uma fraternidade universal.

 

            Isto posto, comecemos pela perspectiva de homem e de humanidade que nos é oferecida pelo Liberalismo, que é a mais antiga destas duas correntes e que hoje situa-se como aquela amplamente dominante.

 

 

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